Ah, aqueles banhos horríveis de quando você se foi

No geral, eu tenho dois jeitos de lidar com algum trauma amoroso. O primeiro jeito é o enlouquecimento completo: ir até o bar mais próximo, beber até conseguir levar alguém para a cama e repetir esse processo até que as feridas sejam curadas. O segundo jeito é tão impulsivo quanto no começo, mas vai ficando menos intenso com o passar de 24 horas: é o enlouquecimento moderado, onde me encho de ódio e deixo de senti-lo sem que isso provoque alguma necessidade de levar alguém para a cama.

Eu não conhecia esse segundo método, mas entendi ao passar por um trauma recente que o enlouquecimento completo não era mais uma alternativa para mim. Ah sim, isso funcionava quando eu tinha 22 ou 23 anos, mas hoje? Certamente sou bem menos imprudente ou inconsequente do que eu tinha sido em outras épocas. O método do enlouquecimento completo envolvia também partir a maior parte de corações possível pelo caminho sem se importar com nada, infligindo dor aos outros até que eu me esquecesse da dor que eu mesmo estivesse sentindo. Ah, quem dera eu ainda fosse tão imaturo e descompromissado! As coisas certamente seriam mais fáceis.

Ao aplicar o segundo método, comecei a enlouquecer e a ser tomado por uma euforia que não chegou a durar 24 horas. Depois disso, eu não sabia o que aconteceria, mas eu tinha certeza que aquela euforia demoraria a retornar. Minha primeira necessidade foi encontrar alguém para conversar. A cidade estava vazia e todos os meus amigos estavam viajando por aí. Por sorte, encontrei uma amiga com a qual pude conversar. Passei 72 horas sem ingerir qualquer alimento e não dormi mais do que três horas por noite. A conversa me ajudou em partes, mas acabou jogando a realidade na minha cara. E não, não era uma realidade fácil de ser administrada.

O que percebi, após passar pelo rápido enlouquecimento e euforia, foi que todas as coisas que eu amava fazer perderam completamente o sentido. Toda cerveja parecia quente e todo cigarro parecia intragável. Mesmo assim, na falta de comida, sono e amor os ingeria inveteradamente.

Você pode pensar que deitar só na cama, no escuro, com o estômago vazio e completamente bêbado em doses cavalares por horas sem conseguir dormir foi a pior parte daqueles dias. Pois não foi. A pior parte, certamente, era entrar no chuveiro (e permanecer lá). 

Os meus banhos sempre foram terapêuticos, mas não paliativos. Quem já conviveu comigo no íntimo sabe que eu posso esquecer do mundo embaixo da água quente do chuveiro, me ensaboando por horas enquanto assobio alguma canção grudenta que ouvi no rádio. O chuveiro certamente sempre foi um recanto espiritual. Não era mais.

Meus banhos foram horríveis. Ao fechar os olhos e deixar a água passar pelo meu corpo era assombrado com pensamentos e sentimentos nefastos, como se um demônio estivesse grudado nas minhas costas e me esfaqueasse repetidamente. Era o terror completo e absoluto. Meus banhos de meia hora se tornaram banhos de cinco minutos, com a água quente que sempre me acolhia se tornando água fervente e com cheiro de sangue que me queimava por dentro e por fora.

Concebi que ao aplicar aquele método para administrar meus sentimentos, eu via as coisas de uma forma não tão saudável quanto quando eu chutava o pau da barraca. Aquela água estava contaminada. Decidi então que eu desesperadamente precisava ir para longe. Recebi um convite, arrumei as malas e fui para longe.

Assim que deixei minha cidade, recuperei o sono. Estava de carona e consegui tirar uns bons quarenta minutos de sono no banco do passageiro. Quando acordei, estava faminto. Em uma parada de caminhoneiros enfiei algo no estômago e me senti completamente renovado. Logo, eu estava em outro estado, cercado por belas praias e pela natureza. Cheguei ao local no qual eu passaria uns bons dias e fiquei encantado com tanta beleza.

Tendo recuperado a fome, o sono e parte da minha dignidade, fui direto para o chuveiro. Eu estava acompanhado o tempo todo então conseguia me distrair bastante. Não tinha mais demônios no chuveiro comigo, mas os banhos nem de longe eram tão prazerosos quanto eu imaginava. Me sentia bem, mas não me sentia eu mesmo.

Chovia e chovia. A praia estava escura e a água estava gelada. Contei para as pessoas que estavam comigo que eu não entrava no mar há quatro anos, exceto para molhar os pés. Eu não gosto muito do mar, especialmente quando ele está muito cheio. Resolvi fazer uma promessa: se no dia seguinte o sol aparecesse lá em cima, eu mergulharia de cabeça no mar.

Contrariando a previsão do tempo, o sol chegou no dia seguinte. Foi provavelmente o sol mais forte do ano, o suficiente para romper os filtros de qualquer protetor solar fator 50. Apanhamos umas cervejas e corremos para a praia. Sim, eu cumpriria minha promessa, mesmo sem ter a menor vontade de entrar no mar.

Esperei todos irem e voltarem de seus mergulhos para dar o meu. E lá fui eu. Meio tímido, comecei a entrar na água. Fui tomado por uma sensação de calmaria terapêutica que me lembrava daqueles banhos que eu sempre tomei. Recuperei a euforia e parte de minha alma. O mar começou a ficar mais convidativo e logo perdi a timidez. Lá fui eu: cabelos embaixo d’água, o corpo inteiro embaixo d’água. O mar que eu detestava logo se tornou minha melhor companhia. Eu realmente passei a amar o mar desesperadamente. Saí de lá me sentindo inteiro e ao chegar em casa já no começo da noite tomei um longo banho quente. E sim, fora tão prazeroso tomar aquele banho no chuveiro quanto tinha sido durante toda a minha vida.

Esse é o negócio sobre o meu segundo método para lidar comigo mesmo e com meus sentimentos: descobri que para que o método funcione eu tenho que fazer coisas que eu não costumo fazer, encarar as coisas de um novo modo, perder aquela sensação chata de que eu não deveria experimentar nada, simplesmente deixar de achar o sofrimento uma coisa legal, ainda que a dor seja inevitável. Faça o novo, sinta o novo, torne-se o novo. Às vezes, um simples banho de mar pode ser o suficiente para que você comece a se reencontrar.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s