E eu já sabia que você me abocanharia (mas não sou presa fácil)

Fazia dias que ela me ligava e enchia minha caixa de mensagens. Fazia dias que eu ignorava solenemente, ainda que não entendesse exatamente o motivo. Estaria, em algum momento, na cidade errada e na hora errada. Sabia que era nesse momento que ela me abocanharia, sem estar certo de quais seriam suas intenções.

E aconteceu.

Lembro que por muito tempo achei que ela seria a única mulher que eu amaria. Longos anos tinham se passado e eu tive minha cota de amor, o suficiente para bebê-lo como se fosse veneno. Quero dizer, você sabe que aquilo pode lhe matar, mas continua bebendo como se fosse uma baleia no fundo do mar cercada por água, entende?

Longos anos sem mergulhar em seus belos olhos verdes.

A pior parte de tudo é que quando sentamos frente a frente ela estava mais bela do que nunca. Os anos a tinham feito bem de alguma forma, aparentemente. Eu me encontrava do mesmo jeito: Fumava meus cigarros de maneira despreocupada, driblando a tensão com um paz que não existia, enquanto bebericava minhas cervejas e algumas ocasionais doses de uísque.

Não almejava nada, exceto continuar entre meu uísque, minhas cervejas e meus cigarros. Embora eu tenha dito antes que parecia uma baleia nadando e bebendo das águas do amor, o amor muitas vezes me transformara em um peixe que poderia muito facilmente ser fisgado. Veja só, tudo o que eu poderia fazer naquela fatídica noite era não me transformar em um peixe. Precisava ser um tubarão ou uma lula grande o suficiente para afundar um transatlântico.

Onde eu estava mesmo? Ah sim, nos olhos! Naqueles lindos olhos, tão belos quanto o próprio mar verde de alguma ilha paradisíaca.

Gentilmente, fomos perdendo o medo de conversar. Discutíamos alegremente as banalidades, para que evitássemos desenterrar cadáveres que tinham sido enterrados anos atrás. Quando queres desenterrar um cadáver, não deve fazê-lo como se fosse arrancar um ‘band-aid’: Deve fazê-lo devagar, como se estivesse comendo pelas beiradas.

Logo, ela começou a mexer com uma pá naquela terra que eu não queria mexer. Sabia que aquilo que havíamos enterrado há alguns anos já se decompusera há muito tempo. Mesmo assim, mexia meus dedos nus na terra, quase como se estivesse flertando com a nossa cova.

-A pior parte é que quero repartir teus lábios com um beijo – disse ela, colocando as mãos de vez no túmulo em busca do caixão.

Quando a conversa fiada termina, em hipótese nenhuma você pode voltar à ela. Você deve botar o dedo na ferida, doa a quem doer (mesmo que muitas vezes doa tão somente a você).

Conversamos como se estivéssemos em uma luta medieval. Eu dava alguns golpes em falso, sabendo que ela poderia desviar. Ela dava-me golpes certeiros, mas eu ainda assim conseguia desviá-los de alguma maneira.

Em algum momento ela elaborou um pequeno discurso e encerrou com a frase “e eu sempre te amarei…”.

Virei em direção a ela, quase esquecendo meu copo de cerveja antes de apanhá-lo com três dedos. Os cadáveres tinham saído da cova e cheiravam mal.

-Você esperou demais! – eu disse.

-Isso significa que você não sente o mesmo?

Eu sabia que não poderia trazer nossos cadáveres de volta à vida, então respondi:

-Não. Isso quer dizer que eu te amo. Nós nos amamos. E você demorou demais pra dizer.

Nossas espadas estavam em nossos pescoços.

-Eu não amo ele. – disse ela, referindo-se a algo que eu sabia muito bem o que era.

-Ainda assim, ficarás com ele. – eu respondi.

-Mas eu não preciso… – retrucou ela.

Depois disso ficamos por alguns minutos em silêncio.

-Ficar com ele talvez não tenha sido a resposta… – respondi então – Ficar comigo, tampouco talvez seja.

Ela parecia cabisbaixa, exatamente como eu parecia alguns anos atrás, quando ela subitamente decidiu que era minha hora de ir. Você vê, o outro sempre pode dizer qual é a nossa hora de ir, mas nunca poderá dizer exatamente quando é a nossa hora de voltar. O amor não conhece ordens nem regras, apenas as implicações daquilo que fazemos em relação a ele.

-Não posso ficar só. – disse ela.

-E como é? – perguntei eu – Ficar com alguém que você não ama? Permanecer com alguém que não amas verdadeiramente por tanto tempo?

-Diferente. – ela respondeu – Por vezes, eu acordo nas madrugadas e sinto que estou com um estranho do meu lado. Alguém que eu achei que poderia amar, mas que verdadeiramente nunca poderia. Meu coração já foi teu, quando tu o roubaste. E continua sendo, apesar de tudo. Sei que você não entende nada disso.

Fiquei em silêncio, apenas bebendo minha cerveja. Ela continuou.

-É isso que eu sempre amei sobre você, entende? Esteves do meu lado, mesmo quando eu não merecia. Lutastes pelo amor, mesmo quando não restava mais para lutar. Quisestes de toda a maneira. Eu desisti. E somente depois de anos a fio percebi que cometi um grande erro. Há algo que eu possa fazer para consertar?

Eu sorri para ela, sem qualquer sorriso de deboche.

-Sempre a amarei. – disse – Se eu amar centenas amanhã, tu ainda serás a primeira. Ninguém apaga verdadeiramente o seu primeiro amor. Os que fazem…

-Voltam anos depois tentando reescrevê-los... – ela completou por si só minha frase, de maneira melhor do que eu poderia fazer.

E fomos um dia.

Não somos hoje, não seremos amanhã. Deveríamos ter sido, mas mesmo em meio a um cemitério de cadáveres em decomposição não soubemos ler os sinais.

O amor vive. Só não espere que ele espere por ti, pois o amor é implacável. Vemos-o como uma coisa bela, tão bela quanto ele verdadeiramente és. Mas pela sua própria natureza, o amor não pode ser requentado ou reescrito. O amor deve ser vivido de uma vez só. Tentar lançar adjetivos tardios sobre ele é o maior dos pecados do coração. Crer que o outro esperará por nós, por vezes não é ilusão, mas é uma grande aposta.

Descobri enfim que tinha nascido para ser amado, não para esperar que fosse amado após ser mastigado e digerido. Ame agora, ou aposte todas suas fichas pela esperança de que o amor deixará de existir um dia, quando decidires amar de novo.

Que teu céu, sejas o meu céu. Não almejo por céus infinitos. Piscamos por um instante e ele ainda está lá, mas se fecharmos os olhos por muito tempo vemos um novo céu: Basta que decidas se olhas para o céu para o qual poderás olhar para sempre ou se todas aquelas nuvens brancas e negras são transitórias.

Amores são escritos nas estrelas. Apagamos-os com palavras.

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