Fora do ninho

A maioria das pessoas nunca consegue deixar o ‘ninho’. Elas nascem em um lugar, passam toda a vida repetindo a mesma coisa e nesse mesmo lugar morrem muitos anos depois. Não, não tem nada de errado nisso. Não significa que as pessoas são pássaros sem asas ou que não aprenderam a voar. Durante toda minha vida, eu achei que as pessoas que não deixavam o ninho estavam condenadas à monotonia e ao descaso com o espírito aventureiro que há dentro de todos nós.

E sim, eu deixei o ninho muito cedo, antes que minhas asas tivessem penas (e mesmo assim consegui voar). E me pego pensando sobre os motivos pelos quais deixei o ninho. Lembro de uma grande tempestade, que não vinha do lado de fora, mas sim de dentro de mim – uma tempestade tão forte que balançou tudo o que estava dentro e fora. Eu fiz o mundo tremer e, ao descobrir que eu era capaz de fazer tremer o mundo, deixei meu ninho e fui provocar umas tempestades por aí.

O ninho, entretanto, traz uma série de possibilidades (inclusive a possibilidade de isolamento). Nunca confiei nas pessoas que não deixavam o ninho, mas talvez elas sejam mais estáveis para lidar com as tempestades que ocorrem dentro delas mesmas do que eu. Não, eu ainda não aprendi a entendê-las, embora tenha me esforçado bastante, mas não acho que elas estejam erradas. Permanecer no ninho, mesmo durante as tempestades, talvez seja um ato de bravura.

Eu mesmo já habitei em diversos ninhos, alguns construídos por mim e outros construídos por outros. As tempestades sempre aparecem novamente e os ninhos são derrubados. Levanto minhas asas, bem maiores do que quando eu deixei o ninho pela primeira vez, e vou para longe. Logo, construo outro ninho. Logo, crio outra tempestade. É um jeito de deixar as coisas interessantes. Nada nunca fica monótono quando lutamos a lado do deus da destruição e nada se repete quando você destrói tudo aquilo que fica repetitivo.

Ah, olhe para todos esses estranhos no ninho. E olhe também para os estranhos que já o deixaram. Voe, passarinho, para ver o mundo – ou fique passarinho, pois o mundo não é dos lugares mais fáceis. Lide como quiser com as tempestades que ocorrem na vida e dentro de ti. Só nunca deixe de criar ninhos dentro de ti, para aqueles que voam ao teu redor, pois quando as asas destes estiverem cansadas e tudo o que eles precisarem for o pleno repouso, encontrarão conforto no teu peito. E quando tu estás cuidando do ninho de outro dentro de ti, você não pode mais permitir que as tempestades os destruam nem pode deixar o ninho em apuros, pois por mais que aquele ninho possa ser desabitado rapidamente, há uma grande chance de que ele vale a pena ser mantido.

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