Vire-se para que eu diga que eu te amo

Eu nunca fui um desses caras que ama fácil, mas em todas as vezes que amei eu amei com uma intensidade nunca vista. Há alguns anos atrás eu tive um relacionamento intenso e bastante louco. Creio que foi a primeira vez que eu realmente amei com a intensidade enlouquecedora. Antes, tinha tido um relacionamento com alguém que amava, mas as coisas não eram muito loucas… Eram mais sóbrias, talvez justamente por ser meu primeiro relacionamento sério. E eu lembro que foi bem diferente dizer eu te amo das duas vezes – pois nunca foi algo que eu gostei de dizer para as mulheres, exceto para minhas amigas, justamente por não saber exatamente o que elas pensavam de mim. No primeiro relacionamento sóbrio, falamos eu te amo durante o sexo. No segundo, falamos enquanto estávamos em um bar curando a ressaca com cerveja… Foi tipo um “foda-se, eu te amo”. Não devo ter dito um ‘te amo’ para mais de cinco pessoas na vida.

Bem, como já estava escrito nas estrelas, o relacionamento louco acabou. Decidi então que não amaria ninguém daquela forma de novo. E eu mantive aquela promessa por longos anos. Sempre que aparecia alguém que se tornava próxima demais, eu me afastava – saia correndo como vampiro que foge do alho. Quando eu não conseguia me afastar, encontrava um motivo para que elas se afastassem.

Anos depois eu conheci alguém. Tentei me livrar da pessoa no começo, admito – mas algo não funcionava naquele processo. Começamos a conviver bastante e ela frequentemente se encontrava na minha cama. Depois de algum tempo, ela simplesmente disse:

Te amo!

Aquilo para mim foi como um soco na boca do estômago – certeiro e bem dado, mas também foi como o sopro dos anjos – simples e sem pedir nada em troca. Ignorei aquilo por alguns minutos e depois conversamos sobre. Procurava na minha cabeça motivos para não responder daquela forma, mas me pegava pensando: “É, eu realmente amo essa mulher”. As palavras, no entanto, não saiam da minha boca. Eu não conseguia processar os sentimentos – passei a vida inteira tentando evitá-los.

Eu disse para ela que não conseguia falar – mas que me sentia da mesma forma. Ela compreendeu, mas havia algo errado em não respondê-la como eu desejava. Ela estava nua embaixo das cobertas quando eu descobri qual era o grande problema: estava mantendo uma promessa que fiz para mim mesmo há anos atrás. O que eu precisava fazer era quebrar minha promessa. Eu queria quebrar minha promessa, mas não sabia exatamente como fazê-lo.

A melhor solução que encontrei foi virar pra ela e dizer:

-Vire-se para que eu diga que eu te amo!

Ela gargalhou, vendo que eu estava perdido em administrar meus sentimentos. Mesmo assim, ela virou. Eu apaguei as luzes para ficar no escuro. Demorei alguns minutos, até que as palavras saíram da minha boca.

Te amo!

Soube daí que tudo estava perdido. Como tinham sido bons os anos sem dizer aquelas palavras. Minha promessa tinha sido quebrada e eu novamente tinha mergulhado no desconhecido dos olhos de alguém. Estava completamente perdido e completamente satisfeito.

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