O garoto feito de pedra

De vez em quando (bem de vez em quando) a gente se depara com uma sensação ou um sentimento que nos leva de volta para a infância. Nos sentimos crianças novamente nos nutrimos com toda a inocência e ternura que um dia tivemos. Aquela sensação pode durar por horas, mas cedo ou tarde você volta para a sua vida. Pensa nas contas e pensa em um jeito de ganhar mais dinheiro. Você não pode mais brincar o dia todo com seus brinquedos, pode? Nem pode passar o dia vendo desenhos e aguardando a chegada do seu chocolate quente, né? A vida entra no caminho dessas coisas, a gente cresce e perde algo dentro da gente.

Ansiedade, depressão, alcoolismo & todas as psicoses do mundo. Quando deixamos de ser crianças (por mais que tenhamos desejado por inúmeras vezes que deixássemos de ser) nos deparamos com a vida e compreendemos como ela é dura. Ficamos um pouco mais parecidos com nossos pais, com um olhar cansado e preocupado. A gente vê por aí essas pessoas que parecem manter a criança interior sempre viva, mas elas não conseguem fazer isso o tempo todo, não é mesmo?

Quando crescemos, enxergamos a vida adulta como uma medusa. E ninguém nos avisou para não olhar diretamente para ela! Encarando a medusa, transformamos nossas crianças interiores em pedra. Ah, não há espaço para a inocência e para a ternura nessa vida ardilosa… O problema é que você continua temendo os monstros, só sabe agora que eles não se escondem no seu armário ou debaixo da sua cama. Eles estão por todo o lado e foi a própria vida que os criou. Eles também olharam diretamente para a medusa, entende? Eles não tiveram escolha, assim como você também não teve.

De vez em quando (bem de vez em quando mesmo) o feitiço da medusa passa por alguns instantes e você se reencontra com sua criança interior. Percebe que sente falta dela. Percebe que ela não está morta, apenas escondida dentro de você, transformada em pedra para que você possa enfrentar sua vida. Deseja inutilmente voltar para a infância, deseja aqueles dias longos e sente falta até de se ferrar nas provas de matemática. Quem dera nossos maiores problemas estivessem em somar, subtrair, dividir e multiplicar números, não é? Que saudade da tabela periódica que eu nunca entendi direito…

Existe um jeito de quebrar esse encanto? Podemos trazer nossa criança interior para perto da gente? Simplesmente deixar que ela se transforme em uma criança de novo e deixe de ser pedra? Quando transformamos nossa criança interior em pedra, ainda que inconscientemente, transformamos parte do nosso coração em pedra – aquela nossa melhor parte. A única certeza que temos é que não podemos desistir de nossa criança interior. Mesmo transformada em pedra, ela sente fome. Mesmo transformada em pedra, ela está sem abrigo. Mesmo transformada em pedra por nós mesmos, nossas crianças interiores são mais importante para nós do que nós somos importantes pra elas.

 

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