Enfrentando o monstro que existia dentro do armário

Quando eu era pequeno, eu passei umas boas noites sem dormir. Pensei que existia um monstro dentro do armário. Eu o imaginava como uma criatura coberta de pelos pretos, com um par de chifres afiados e olhos vermelhos. Eu quase podia vê-lo lá dentro do armário, mas eu nunca havia colocado meus olhos nele. De vez em quando, eu podia ouvi-lo respirar lá dentro. Foi ali que eu descobri o medo. Eu temia a terrível criatura que vivia em meu armário em todas as vezes que o céu escurecia.

Eu lembro que eu tentava criar coragem para abrir a porta do armário e enfrentar o monstro. Fitava a porta do armário todos os dias, mas a coragem se esvaia quando chegava a noite. Um dia, fui tomado por uma súbita valentia que me fez sair da cama, ainda enrolado na coberta e abraçado com um ursinho de pelúcia. Coloquei minha pequena mão sobre a porta e a puxei, com alguma audácia. Fechei os olhos enquanto abria a outra porta para me deparar com aquela terrível criatura que provocava o meu terror e me tirava o sono todas as noites.

A questão é que quando abri meus olhos não havia nada ali. Não existia uma criatura preta, com chifres pontudos e olhos vermelhos vivendo no meu armário. Na minha primeira experiência com o medo aprendi que quando o enfrentamos, ele pode não ser real. E desde então eu abri muitas portas e os monstros sempre desaparecem.

E então me foi revelado outro segredo: aquelas noites longas cheias de medo do monstro terrível que (não) vivia em meu armário eram uma parte importante da vida. Na noite seguinte, não pensei sobre o monstro no armário. Eu sabia que ele não existia de verdade e que ele só tinha existido dentro da minha mente. Eu tive que aprender a enfrentar os meus medos desde cedo para que eles não se tornassem meus donos. E eu só conseguiria dormir se o monstro não estivesse lá, e adivinhe: descobri que ele nunca esteve.

E houve, desde então, um número grandioso de monstros residiu na minha cabeça. Eu os vejo por trás dos olhares de outros, no medo de seguir em frente, no medo de ficar parado. Nem sempre tenho a coragem necessária para abrir novamente os armários da vida e me deparar com aquele nada. Nós somos, afinal, a soma de todos os nossos medos. Quando enfrentamos todos os nossos monstros e erradicamos todos os nossos medos, corremos o risco de nos transformarmos nos monstros que acreditávamos existir – nós os criamos, enfim, dentro de nossas mentes. E esse medo de nos transformarmos nos monstros que nos amedrontaram é o maior de todos os monstros – esse sim, deve ser exposto à luz para que vejamos que não nos transformaremos naquilo que nos dá medo. Não seremos para os outros, o que os monstros que criamos em nossas cabeças foram para nós.

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