Dos cartazes de “Pessoa Desaparecida” que encontramos por aí

De vez em quando, saio para dar uma curta caminhada e simplesmente sentir o sol (ou a chuva), para ver as pessoas e ouvir suas conversas discretamente. Eu saio para ver um pouco da vida, às vezes com ressaca, procurando algum lugar para comer. Saio mesmo sem motivo, só pra chutar umas pedrinhas no caminho e respirar aquele mesmo ar que todos respiramos. Eu simplesmente saio. Nem levo meu fone de ouvido para não me distrair e por muitas vezes saio com as roupas com as quais estou em casa. Se você andar perto da minha casa, vai me ver de pijamas tantas vezes que vai cansar.

E eu sempre presto atenção. Eu olho para os grafites, para as pichações, sinto o cheiro horrível da cidade grande. Olho para os postes. Há sempre algo escondido nos postes, não é mesmo? Um dia você vê o anúncio de um serviço de fretes e mudanças, no outro você vê o anúncio de um cara que repara poltronas e cadeiras de escritório. Aqui na frente da minha casa, por exemplo, tenho dois anúncios em um poste: um é de uma gatinha perdida, outro de uma calopsita. Creio que ambos fugiram e vão deixar um buraco no coração dos donos, mas espero que eles consigam voltar pra casa.

Mas… Por vezes eu saio um pouco da minha área, pra ver um lugar diferente mesmo que eu já tenha estado lá antes. E eu ando algumas quadras e me deparo com uma mensagem sobre uma pessoa desaparecida. A Bruna sumiu, o João também… Todos em condições, lugares e vestindo roupas diferentes. Pra onde vão as pessoas desaparecidas? Aquelas que nunca mais são encontradas? Há um bocado de gente perdida por aí. Será que essas pessoas querem ser encontradas? Aconteceu algo terrível com elas ou elas simplesmente se perderam e estão em algum lugar tentando se encontrar?

Ando com um bloquinho por aí… Anoto o nome das pessoas e algumas informações básicas. Tiro uma foto com meu celular… Uma espécie de arquivo morto (e eu não me refiro ao termo morto nos termos que você imediatamente está pensando. Depois, crio pequenas histórias para aquelas pessoas. Eu não gosto de pensar que elas foram sequestradas ou que estão em alguma vala por aí. Não… Fica difícil viver assim.

Bruna, 15 anos, vista pela última vez na frente da escola, vestia o uniforme do colégio. Não, ela não foi sequestrada. A família não aceitava que ela gostava de meninas, então fugiu com a namorada para perseguir seu sonho de ser pintora. Mora na praia, sem nenhum problema no mundo. Se curva para o sol toda vez que o vê, como se encontrasse ali o seu Deus.

Jeremias, 61 anos, foi para a padaria e nunca mais voltou. É grisalho e usa óculos, 1,78 de altura. Não, ele não simplesmente esqueceu onde estava, nem caiu na rua no caminho da padaria. Ele simplesmente se cansou da rotina. Resolveu viver com os bichos. Tem um macaquinho de estimação e colhe o próprio café da manhã (come batatas e cenouras todos os dias). Pegou o gosto pela natureza. Passou a vida querendo fazer aquilo, mas só tomou coragem de fazê-lo aos 61. Preferiu não avisar ninguém, pois quis ter o direito de ser um senhor irresponsável – e por não querer que ninguém o impedisse de realizar os seus sonhos e desejos.

Sabrina, 29 anos, vista pela última vez ao sair para o almoço durante o expediente. Ela simplesmente se cansou do seu trabalho. Pensava todos os dias se fazia a coisa certa. Em um instante enquanto comia o mesmo prato de todos os dias, decidiu que tudo aquilo estava errado. Não levou seu carro, nem suas roupas, mas foi sozinha morar no interior. Se apaixonou e está com o casamento marcado. Passa seus dias cuidando de bichinhos abandonados que ela mesma resgatou na rua. Não pensa em voltar a ser uma corretora imobiliária, mas pensa em fazer seu próprio abrigo para os animaizinhos.

Até mesmo a gatinha Nicole cansou de ser uma gata doméstica e foi viver selvagem, junto com os outros gatos de rua perto do cemitério. A calopsita (que não tem nome no cartaz) provavelmente foi procurar pela sua família, pois não aguentava mais de saudades (espero que a calopsita e Nicole não se encontrem). Nada de atropelamentos ou de uma fuga sem propósito.

Não são histórias bem melhores? Sem estupros, sem mortes, sem corpos desovados, sem carros incendiados, sem corpos cortados em pedaços, sem histórias tristes, tragédias ou planos que foram interrompidos por uma mão que carregava uma faca. Absolutamente, sem histórias tristes. Já acontece tanta tragédia no mundo! Creio que não suportaria mais uma. Prefiro imaginar a Bruna com a namoradinha, o senhor Jeremias colhendo batatas, a Sabrina deitada na cama com três cachorros e cinco gatos.

Toda vez que me deparo com um desses avisos de desaparecimento, prefiro contar para mim que aquelas pessoas foram viver os sonhos de sua vida e não querem em hipótese alguma ser encontradas. Se for assim, com sorte, teremos todos nossos cartazes de desaparecidos espalhados por aí. Você não queria, assim como eles, se perder para que pudesse se encontrar?

Não, aqueles cartazes colados nos postes e revestidos com fita não contam histórias tristes. Eles contam histórias impressionantes, de pessoas incríveis, que por um impulso quase divino resolveram se encontrar. Elas não estão desaparecidas. Elas não estão perdidas. Elas só não querem ser encontradas.

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