Costumava ser tão fácil…

Costumava ser tão fácil. Eu levantava, colocava uma roupa e saia por aí. Sorriso no rosto, nenhuma preocupação, ainda que a vida estivesse bem longe de ser perfeita. Poucos tostões no bolso, que eu sempre gastava mal. Mesmo assim, tudo parecia estar no lugar. Costumava ser tão fácil quando tudo parecia estar no lugar (ainda no meio de uma bagunça que eu costumava criar em minha própria mente).

Costumava ser tão fácil não ter pouco dinheiro no bolso. Eu passava meus dias pensando em uma forma de tirar uma grana a mais para sobreviver. Até aquele clichê do “escritor morto de fome” fazia tudo parecer mais fácil. Era extremamente fácil cair na gargalhada… Eu caia de gargalhada o tempo todo, quase sempre sem motivo aparente.

De repente, todos aqueles meus pequenos problemas sumiram. Eu tinha um bom dinheiro no bolso e não tinha mais que escolher entre pagar aluguel ou comprar uma roupa. Mas foi aí que meus problemas começaram.

Costumava tudo ser tão fácil.

E não costuma mais.

Não estou certo do que aconteceu. Eu devia estar bem mais feliz do que antes, né? Que diabos aconteceu comigo? Eu me perdi completamente de mim mesmo. Não consigo mais meditar ou simplesmente levar a mão ao coração. Os tostões a mais no meu bolso realmente não eram a resposta que eu procurava.

Mesmo perdido em meio a paranoias, um coração partido em mil pedaço e não tendo nada dentro de mim que não seja o caso e a insegurança eu não quero voltar atrás. Não se pode atrasar o relógio por alguns anos e torcer para que as coisas realmente sejam como um dia foram. As coisas, na verdade, estão bem melhores… Quem não está bem sou eu!

Mesmo assim, mesmo completamente desconectado da vida e de mim mesmo… Mesmo entregue à solidão, sem ter ninguém pra conversar… Mesmo com uma tosse que já dura anos… Mesmo sem conseguir passar um dia sem beber… Mesmo em meio a um inferno particular… Eu não queria uma máquina do tempo.

Costumava ser tão fácil…

Mas foda-se.

Mesmo que tudo voltasse, não seria fácil novamente. A minha receita para a felicidade não está no passado, está em absorvê-lo e esquecê-lo. Não tenho mais a pretensão de fingir estar bem. Me entreguei à solidão, ao descaso… Aceitei meu inferno particular, entende? Pois se eu continuasse fingindo que vivia nos céus, eu estaria condenado a passar a eternidade nele.

Agora eu consigo vê-lo. Agora eu consigo ver a mim mesmo nele. Não faz calor como nas histórias… O que eu sinto é uma dor imparável, tão constante quanto o próprio ‘tic-tac’ de um relógio de ponteiros. E agora que eu consigo vê-lo, eu posso enfrentá-lo.

Ah, sim, costumava ser tão fácil. Mas quem seria idiota o suficiente para querer sair do inferno com facilidade? Justamente pelo fato de que as coisas costumavam ser tão fácil, eu fiquei relaxado demais. Costumava ser tão fácil que foi extremamente fácil chegar ao inferno. Eu só descobri que lá estava quando eu já estava nele. Costumava ser tão fácil, mas eu não quero mais o fácil. Quero sangrar o quanto meu corpo aguentar (e talvez até mais) para que eu possa sair desse lugar caótico e inóspito.

Só aceitando a solidão eu poderei enfrentá-la. Só aceitando o silêncio eterno que eu poderei voltar a fazer música. Só aceitando que nada está como quero que eu poderei ser quem eu sempre quis ser. Sem olhar para o passado, apenas para o aqui e agora… Por mais que o passado seja extremamente tentador e o presente seja um presente de grego.

Sim, eu vencerei. Vencerei o inferno e a solidão. Vencerei as paredes que me amedrontam. Derrotarei meus demônios, um por um. Me farei inteiro, construindo-me pedacinho por pedacinho.

Eu voltarei.

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