“Ei, sua namoradinha se matou”

O que eu vou contar agora aconteceu faz quase dois anos. Não que eu tenha esquecido, mas dia desses apareceu em minhas recordações do Facebook uma música que eu estava ouvindo no dia que ocorreu. Imediatamente fui ao chão.

Bem… Eu estava em casa olhando para o nada, me esforçando para parar de procrastinar, mesmo sem sair do lugar quando eu recebi uma mensagem no celular.

-Está aí?

Era um amigo de longa data. Havíamos saído juntos por alguns meses há muito tempo quando passei uma curta temporada na cidade de São Paulo. Nos dávamos bem, mas quase nunca nos falávamos. Das duas uma: ou ele queria um favor ou trazia más notícias. Era a segunda opção.

-Estou. Pode falar! – respondi.

-Então… Sua namoradinha se matou.

Ah, sim, “Minha namoradinha”… Eu soube exatamente de quem ele estava falando. Quando eu estive em São Paulo, eu fiquei com essa garota algumas vezes. Era uma das meninas mais lindas que eu havia beijado e certamente uma das mais loucas. A gente ficou juntos todos os dias por um pouquinho de tempo e então meus amigos me zoavam dizendo que ela era “minha namoradinha”. Eu não gostava da brincadeira, porque no fundo – bem no fundo – fomos namoradinhos por algumas semanas.

-QUÊ? MORREU COMO? – perguntei.

-Se matou!

Imediatamente passaram mil coisas na minha cabeça. A “minha namoradinha” da época estava sempre falando sobre o suicídio, de um jeito que eu deixei de ligar quando ouvi ela dizendo que ia se matar pela segunda ou terceira vez. Sempre que acontecia alguma coisa que deixava o clima entre nós pesado e eu queria sair correndo, ela dizia que ia se matar. Eu duvidava, mas fazia o que ela queria de qualquer jeito… Afinal, nunca se sabe, né? E dar o braço a torcer e ficar com ela mais um tempinho não era exatamente um castigo.

Fiquei um tempo sem falar nada.

-Se matou como?????

-Tomou remédio. Aqueles faixa-preta dela lá. Uma cacetada deles!

Os remédios. Ela estava sempre com os seus remédios. Dizia que ficava diferente sem eles, de um jeito que ela se perdia dentro dela mesma.

-Tudo bem por aí? – perguntou meu amigo.

-Tudo… Preciso ir! Valeu por avisar! – respondi.

-Valeu…

Não chorei naquele dia, nem no dia seguinte, nem estou chorando dois anos depois. Mas há uma sensação muito estranha nisso tudo. Quero dizer… Compartilhamos lençóis, compartilhamos nossos corpos e o mais importante: compartilhamos momentos inesquecíveis, que eu levarei para toda a vida. Foi parte de minha vida aventureira e louca. Eu gosto de todas as pessoas que estiveram comigo daquela forma naquela época. Sinto uma conexão que não se vai com o tempo, mesmo que eu não converse mais com aquelas pessoas.

Imediatamente abri uma garrafa de vodca. Brindei à ela. Lembrei de seus cabelos pretos e das roupas azuis que ela sempre usava (azul era sua cor favorita e ela ficava bela como nunca com um vestidinho azul escuro que ela tinha). Lembrei também que ela dizia que eu nunca escrevia nada pra ela, somente os bilhetinhos que eu deixava espalhados pela casa dela. Penso se ela os leu ou simplesmente os jogou fora. Mas ela queria que eu escrevesse um texto aqui para ela. Ela nem sabia, mas eu escrevi sobre ela aqui, só não de maneira implícita… Escrevi sobre o caos e a desordem que se traduziam em amor quando nos encontrávamos.

Por um instante, estivemos juntos de novo – ou ao menos pareceu que eu tivesse voltado para aquelas noites cheias de uísque, dos cigarros e da maconha que ela me obrigava a fumar. Achei que estaríamos juntos naquele instante como uma espécie de adeus, mas às vezes ela vem me ver nos meus sonhos. Sempre brigamos nos sonhos, como sempre brigávamos em vida. Ela continua igual, mesmo que eu tivesse visto uma foto dela em que ela estava com o cabelo descolorido no ano em que se matou.

Lembro dela insistindo para que eu escrevesse sobre ela como escrevia sobre as outras garotas. Ela achava que eu tinha vergonha dela, que estava a escondendo do mundo. Talvez apenas a segunda opção, de modo não intencional. Ela sempre me pedia isso, todos os dias, a qualquer momento. Me pedia no café da manhã e também no jantar, mas eu nunca soube exatamente como fazê-lo. Eu preferia sempre deixar os bilhetinhos espalhados pelo seu apartamento. Gostava que fossemos um segredo.

Sinto muito sobre o ocorrido.

Espero que esteja em paz.

Aqui está o que você me pediu.

Desculpe por demorar tanto.

Nos vemos daqui a pouco!

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