A Ilusão da Independência

Saí da casa dos meus pais muito cedo e fui viver minha vida. Quando eu digo ‘muito cedo’ é pelo motivo que eu saí muito antes do que as pessoas pensam em sair da casa de seus pais: imaginam que vão sair aos 18 e saem lá pelos 30. Eu fiz isso antes dos 18, numa loucura invulnerável, pois só havia uma coisa que eu queria de verdade: a independência. De nada valeria a vida, naquela época, se eu não conseguisse ser independente.

O resultado foi imediato. Me senti a pessoa mais independente do mundo, mesmo sem saber como eu pagaria as contas dali em diante. Olhando agora, de tão longe, posso dizer… Minha vida foi uma aventura – e uma das boas – mas não teve nada a ver com meu objetivo inicial: a independência.

E eu consigo enxergar tudo com alguma clareza agora. Independência não tem a ver com independência financeira, não tem a ver com o que você consegue fazer sozinho, nem com o quanto produz ou com a quantidade de pessoas que você consegue levar pra cama. Isso é apenas a dependência: você depende do dinheiro (ainda que você mesmo o ganhe) e depende das pessoas que você leva para a cama (ainda que elas vão por livre e espontânea vontade).

Então, tenho andado cá a pensar com meus botões sobre a independência. Eu tenho sido, há quase uma década, o mais independente que eu poderia ser. Mas ainda assim não me sinto ‘independente’, pelo simples fato de eu não sentir a liberdade como eu deveria senti-lá. Não é o fim do mundo, nem de longe… Mas eu tenho todos esses anseios que levei comigo por toda a vida… Todas essas vontades… E com todas as condições a realizá-las, não as realizo. Por muito tempo não tive nada a perder – essa é a parte independente. Mas, agora, o que eu faria se eu perdesse tudo?

Ter algo é o primeiro passo para se tornar um dependente. Não há independência quando você tem algo ao perder, ou, ao menos, quando você tem algo a perder que não está disposto a perder. Você vê? Nós nos tornamos dependentes, por mais gritos de independência que possamos dar à beirada do Rio Ipiranga. E nos tornamos dependentes sem motivo, sem causa aparente… Simplesmente nos tornamos.

Você vai dormir um dia com aquela sensação plena de independência. Mas acorda, como sempre acordou, e sente falta de algo – algo que você não pode simplesmente ir pegar na geladeira – e é nesse momento que você percebe a verdade: a independência é uma ilusão.

Mas, se a ilusão é realmente uma independência (assim como a independência é verdadeiramente uma ilusão), nós precisamos pensar sobre ela. Mesmo quando ouvimos uma mentira, precisamos pensar sobre ela. Mesmo sobre uma ideia errada, precisamos pensar.

E eu ando cá, pensando com meus botões, sobre a ilusão da independência. A independência seria, afinal, podermos fazer tudo o que quiséssemos sem que precisássemos da ajuda de outrem. Esqueça seu trabalho, pois se tu és obrigado a trabalhar com algo que não quer dia após dia, tu não és independente. E não é fácil se tornar independente de teu trabalho, não é mesmo? Não sem uma herança generosa. E daí você se torna dependente da tua herança. Nunca é você por você mesmo, pois a única forma de ser verdadeiramente independente é ser tu por si só.

E daí você percebe, por si próprio e de um jeito quase independente que você não é independente de verdade. E daí você percebe de um jeito ainda mais independente o quanto a independência pode ser solitária. Percebes que não és independente, do mesmo modo que percebes que não queres ser. A independência, não é, afinal, sobre estar só? Não é um sinônimo de solidão, ainda que soe bem, quando nos referimos à ela como ‘autossuficiência‘?

Não quero ser independente, não por completo. Quero ter a humildade de assumir quando eu preciso de ajuda. Não quero ‘independer’ de meus sentimentos, nem da forma através da qual eu vejo o mundo. A independência completa, seria assim, uma forma de egoísmo? Ou de simples abandono de nós mesmos? Ser humano não é ser independente. Ser independente – por completo – é só mais uma das ilusões que permeiam a vida.

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