Dela, das contas do mundo & dos peixes fisgados

A vi, e tão fácil quanto fora olhar para ela, fui fisgado – ainda que ela não fosse uma pescadora e que eu não fosse peixe. Apesar de não entender até hoje qual foi a sua ‘isca’, mas me lembro exatamente daquela sensação de que eu tinha caído nela como peixinho. Também me lembro de ter gostado daquela sensação, de me sentir – nem que fosse por um segundo – como se eu não tivesse para onde fugir.

Lembro que eu não tinha muito jeito com aquela mulher! Tudo o que ela fazia parecia de alguma forma sexual (ok, talvez eu tenha percebido agora qual foi a isca que me levou ao seu anzol) mesmo quando caminhávamos pela rua ou parávamos em algum boteco para pegar uma cerveja. Ela tinha transformado o mundo e a vida em uma grande putaria e, no bom sentido, o que mais eu poderia querer?

Ela se permitia ao mundo, mas o mundo não a permitia. Não! O mundo queria empregos, queria a economia rodando, queria guerra, petróleo, inflação! O mundo não queria que ela o deixasse de fio dental e com as pernas abertas. Por mais que eu tenha passado uns bons dias com o rosto entre suas coxas, um dia o mundo veio trazer a conta. E foi aí que eu percebi que tudo é negócio e que a conta sempre chega: o garçom que ficou sendo seu amigo à noite toda acaba lhe trazendo a conta no final. E o mundo te leva aquele par de coxas.

Foi tão rápido quanto morder a isca. Alguns dias depois, ela chegou até mim e disse que tinha recebido uma oferta de emprego – uma daquela irrecusáveis e bem longe de onde nos encontrávamos. Pelo seu tom, tive a impressão que ela queria que eu a pedisse para ficar, para abrir mão de seus sonhos e para não fazer nada louco. Talvez ela queria que eu me convidasse para ir com ela, pra deixar tudo aquilo de ‘largar tudo’ um pouco menos louco.

Não fiz nem um, nem outro. A encorajei, pois precisava acertar as contas com o mundo. Aquela mulher poderia, naquele momento, ter sido um presente – mas não foi, pois, do contrário, eu teria a aceitado. Não era presente, tampouco poderia ser um objeto ou minha propriedade. Tudo o que eu poderia fazer era ser um pouco altruísta e encorajá-la para que ela passasse a viver a vida que sempre quis.

Se ficasse do meu lado, teria sido feliz por algum tempo. E depois? E quando ela olhasse para trás e visse a vida que poderia ter tido? Não! A ela o mundo havia dado um presente. A mim, só teria deixado a conta.

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s