Afogando-se na pia da cozinha (Ou: Converse com seus talheres)

Eu havia enrolado por tempo o suficiente e as louças continuavam na pia. Pensei no que eu poderia fazer no momento para fazer qualquer outra coisa, mas não havia jeito: era chegada a hora. Na verdade nem havia tanta louça ali, apenas alguns pratos, canecas e talheres – mas eu iria preferir, muito sinceramente, fazer qualquer outra coisa.

Peguei a esponja, a apartei bem e ouvi ela dizer “au”, mas presumi que era coisa da minha cabeça. Peguei o detergente com um pouco mais de delicadeza e simplesmente permiti que o líquido fosse despejado sobre a esponja.

-Bem melhor! – ouvi a esponja dizer.

Todos temos esses momentos na vida onde parecemos estar completamente insanos ou eles acontecem somente comigo? De qualquer forma eu havia descoberto que minha mente funcionava de um jeito um pouco diferente, mas na maior parte do tempo em que coisas loucas demais para serem fruto da realidade pareciam acontecer elas realmente não estavam acontecendo em nenhum lugar que não fosse na minha mente.

Pois bem… Naquele momento eu tinha uma esponja falante. Sabendo que poderia ser um mero momento de delírio e alucinação, a ignorei completamente. Sim, eu realmente tive que repetir na minha cabeça por diversas vezes: “Eu não vou falar com minha esponja, eu não vou falar com minha esponja, eu não vou falar com minha esponja…” – e, de alguma forma, eu pensava que aquilo seria a minha lucidez.

Fazia frio, mas mesmo assim não usei minhas luvas. Liguei a torneira congelante e molhei a esponja.

-AAAAAAAUUUUUUUUU! – ela gritou – Um pouco de água quente não faria mal a ninguém.

Continuei ignorando minha esponja.

Logo, os outros se juntaram a ela. Ouvi um prato dizer:

-Ei, esqueça, esponja! Ele não está aí! Não pode nos ouvir!

-Talvez ele ouça! – disse um garfo.

-Talvez ele ouça! – concordou a esponja.

-Ele não vai ouvir! – disse minha caneca.

De alguma forma, em meio a tudo aquilo, em meio à loucura, conseguia ignorá-los. Lavei um prato, dois pratos… Coloquei-os no escorredor de louça, que disse:

-Bem, ele está mais mal humorado do que normalmente, não é?

-Verdade, seu Escorredor, mas pelo menos está lavando a louça! – disse a esponja.

-Você tem razão, dona Esponja. Era meio urgente já, né?

Elas continuaram falando. Eu continuei lavando a louça. A esponja, os talheres e pratos falavam. Meu escorredor de louças falava.

-Fico me perguntando se alguma dia ele irá achar a menina ‘Colherinha‘ lá embaixo… – disse um pequeno copo americano.

Parei.

Me abaixei.

Olhei embaixo da pia.

Ali estava ela: uma colherinha desaparecida. A tirei do chão e a coloquei na pia:

-Muito obrigado! – disse a Colherinha.

-Ele não pode te ouvir! – disse a minha caneca, já lavada e repousando sobre o Escorredor.

-Talvez ele ouça! – disse o Escorredor – Ele ouviu o Copo agora!

-Ele não ouviu o copo! Foi apenas uma coincidência! – disse a pia – Deve ter dado falta na Colherinha depois de meses.

Tomei muito cuidado para não gritar e para não procurar nenhum psiquiatra de plantão naquele momento. Mesmo assim, concluí minhas tarefas. Preferi não beber em casa naquela noite, pois já tinha convivido o suficiente com a louça da casa por um dia. Saí, enchi a cara, voltei e apaguei.

No outro dia, fui até a cozinha para pegar um copo d’água gelado. Ali, na velha pia, jazia um bilhete:

APENAS ESTEJA AQUI CONOSCO!

ASS: COLHERINHA, ESPONJA, CANECA AZUL, CANECA PRETA, GARFO, ESCORREDOR…

A lista continuava, listando quase todos os objetos da minha cozinha. Aquele bilhete provavelmente significasse que eu havia enlouquecido por completo. Eu, enquanto estava completamente bêbado, provavelmente teria o escrito para ‘pregar uma peça’ no ‘eu do futuro’ (sim, vocês não fazem ideia da frequência com que isso acontece: meu eu bêbado é um grande inimigo do meu eu sóbrio que aparece pelas manhãs).

Mesmo assim, me peguei pensando naquele bilhete. Eu não tinha estado presente por lá! E, quando você está lavando a louça ou preparando um jantar rápido e econômico, o que você está fazendo de verdade? Sua cabeça está em outros lugares, nunca no momento presente. Decidi, a partir daquela manhã, que eu passaria a estar mais presente nessas pequenas atividades.

A louça não voltou a falar. Não ouvi mais nada da Colherinha, do Escorredor, da Caneca Azul ou da Preta. A esponja não mais gritou. A pia nunca mais reclamou.

Passei, de qualquer forma, a estar presente. Lavar a louça se tornou uma tarefas dignamente prazerosa. Há um grande prazer em vivermos o presente! Talvez fosse isso que as peças de minha cozinha tentavam me dizer. Eu não devo estar ficando verdadeiramente insano, não é?

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