A Vida Antes da Internet

Me considero bem feliz por ter feito parte da última geração que não nasceu com acesso à internet. Quero dizer, quando eu cresci já havia acesso à internet, mas não era como hoje em dia. Você precisava que seu pai lhe comprasse um computador. E só podia utilizar a internet nos fins-de-semana ou depois da meia-noite. Internet no celular? Esqueça, não tínhamos nem telas coloridas e a diversão ficavam em trocar SMS com os colegas, nada além disso. Também não tínhamos tablets, smart TVs, nem nada disso. Se queríamos nos divertir, tínhamos que ir para a rua: correr, brincar, subir em árvores.

Não me entenda mal! Eu verdadeiramente amo a internet. Eu só fico pensando: as pessoas eram mais felizes antes dela? Eu não posso dizer que eu era mais feliz (é mais fácil ser feliz quando você é criança), mas eu tenho certeza que eu não trocaria minha infância por uma infância 100% conectada, de jeito nenhum. Você chegou a viver a vida antes da internet? Se sim, você provavelmente concorda comigo.

Eu estava pensando nos dias antes da internet. Parecem até outra vida: as semanas demorava uma eternidade para passar (e sim, isso é uma boa coisa no ritmo alucinante em que vivemos hoje), as coisas tinham um ritmo mais lento e pacífico. Parecia que as pessoas estavam menos ansiosas, menos estressadas, mais felizes e com mais tempo. As crianças saiam pra brincar, às vezes até para jogar video games, mas de um jeito muito diferente. As tecnologias eram uma novidade e as pessoas não confiavam muito nelas.

Bem, as mães que falavam sobre os perigos de se viciar na internet quando começamos a acessá-la hoje estão conectadas nos seus smartphones: o mesmo vale para os pais, para as avós, para as bisavós… Chega a ser engraçado! Estamos em um mundo onde tudo está conectado 24 horas por dia. Não temos mais tempo para nos ‘desligarmos’ do mundo. Eu li esses dias que as pessoas não conseguem mais se concentrar em ler um livro (eu digo realmente pegar um livro, folhear as páginas, sem pulá-las e sem se entediar depois de quinze minutos) justamente pelo fato de que a tecnologia nos deixou mais ansiosos.

Esses dias, uma menina me parou na rua. Ela me falou sobre as fotos que eu havia postado do meu cachorro, sobre uma feira gastronômica em que eu tinha ido e que ela gostaria de ir, mas estava fora da cidade. Eu nem ao menos conhecia a menina, mas a gente ‘se segue’ nas redes sociais.  Pensei naquele dia sobre toda essa exposição (eu posto demais nas redes sociais): alguém pode ver as principais coisas que eu fiz, pelo menos nos últimos seis anos, através do Instagram. As melhores coisas claramente não estão lá, mas a exposição dá uma sensação de que podemos conhecer uma pessoa simplesmente visitando seu perfil.

Acho que conhecer gente ficou um negócio bem mais chato depois da internet, né? É claro, tem gente que só se conhece por causa da internet e isso é maravilhoso! Mas perde um pouco da graça, da sensação de frio na barriga, da curiosidade que só se mata pessoalmente. Eu não sei se é possível conhecer alguém de verdade somente através da internet. Talvez seja, mas eu tenho dificuldades com isso.

Ano passado eu encontrei uma velha amiga e ‘não tivemos assunto’: sabíamos tudo o que tínhamos feito nos últimos anos, sabíamos como tudo estava. As pessoas parecem ter parado de conversar sobre as coisas, porque elas podem descobrir tudo através da internet e das redes sociais. Basta abrir o Facebook: você descobre a posição política de alguém, se ela pintou ou cortou o cabelo, se ela fez uma tatuagem nova, se ela continua namorando, noivou ou terminou o relacionamento.

Nem de longe eu gostaria que a internet acabasse. Mas eu li também que a época mais feliz em que viveu o homem foi na época dos caçadores e coletores: eles viviam apenas no presente e buscavam apenas sua satisfação com o momento. Não havia ansiedade, preocupação, posses ou ausências. A internet parece ter nos impedido de viver o momento, de nos concentrarmos no agora. É uma ferramenta poderosa, cheia de conhecimento que nunca teríamos acesso. Mesmo assim, é por vezes algo alienante.

Toda a ideia que gira em torno da internet é de estarmos permanentemente conectados. Estamos mesmo? Parecemos por vezes estarmos fechados para a própria realidade, preso em nossas bolhas digitais. A vida parece ter ficado… Bem mais chata! Eu não sei se eu era mais feliz ou não antes da internet e eu certamente não desejo que ela desapareça, mas tenho pensado muito sobre a forma como nos conectamos. É uma conexão meio superficial, meio ‘eu sei lá’.

Termos acesso à informação em segundos é tentador e podermos nos conectar com alguém que vive em Tóquio ou em Banjul é verdadeiramente fascinante. Podermos comprar passagens de avião pela internet, pedirmos comida com três toques na tela… É tudo confortável e aconchegante. Se você está lendo esse texto, você provavelmente pensa que eu desejo um mundo sem internet. De forma alguma! Considero a ferramenta essencial. Sem ela você nem mesmo estaria lendo isso, certo?

Mas eu gosto de pensar na vida sem internet. Gosto de ouvir histórias (sobretudo de pessoas mais velhas do que eu) que viveram boa parte da vida sem smartphones, smartwatches, kindles, tablets… Eu não desejo que ela suma, mesmo assim, é muito bom pensar um pouco longe dela às vezes. Se você chegou a viver uma parte da sua vida (ainda que pequena) sem a internet, faça o favor de me contar sobre isso.

Esse texto não é um desabafo nem nada assim. É só uma pequena reflexão. A Internet é maravilhosa, mas parecemos estar escravizados por ela. Pela manhã, quando você acorda… Qual a primeira coisa que procura após abrir os olhos? Você sabe a resposta. Talvez devessemos refletir um pouco sobre isso, tirar um dia de vez em quando para deixarmos ela de lado. Talvez, se desconectar por um dia em um mundo cada vez mais conectado, seja um ato de resistência: ir à praia sem fotografar o mar, degustar uma refeição sem postar no Instagram, tropeçar no chão sem contar aos seguidores do Twitter, ver algo engraçado sem postar no YouTube.

Isso não é um convite para se desconectar. É um convite para se conectar com a vida sem a internet, pelo menos por alguns instantes de reflexão. Você lembra da vida antes da internet?

Gostaria de dedicar esse texto à Ana Terra e ao Júlio César. Um diálogo de vocês (na própria internet) inspirou esse texto.

 

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4 comentários

  1. Anderson perfeito a sua colocação. Eu vivi minha infância, adolescência e maturidade sem internet. Era tudo vivenciado com uma intensidade difícil esquecer. Outros tempos que tenho muitas histórias pra contar.
    A internet trouxe muitas coisas boas concordo, com facilidades incríveis, já não consigo viver sem algumas: Waze, Watsapp… mas acredito que temos que ter limites. As pessoas estão deixando de conviver mais. Boa reflexão! Abraços

    Curtido por 2 pessoas

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