“Não sou eu, é você”: sobre não terceirizar responsabilidades

Você já ouviu aquela frase “O problema não é você… O problema sou eu”? Provavelmente já a ouviu um bocado. Provavelmente já a disseram para você e você provavelmente já disse para alguém, uma ou duas vezes. Mesmo quando a culpa é da outra pessoa, as pessoas dizem “ei, não é você, sou eu”, mas por quê? Por que temos essa necessidade de assumirmos uma responsabilidade mesmo quando o problema não é com a gente?

Sempre teremos esses clichês na vida e no amor, aquelas frases batidas que não representam nada, mas que sempre insistimos em repetir novamente. Teve uma garota na minha vida há uns seis ou sete anos. Eu levei aquela garota para o inferno, mesmo sem ter a intenção. Sabia que ela precisava de muita atenção, o que eu não estava disposto a dar naquele momento. Um dia, ela resolveu ‘terminar’. Sabe o que ela me disse?

Sim: “não é nada com você, é comigo”.

Desde que eu a conheci, eu soube quem ela era e do que precisava. Sabia que não seria a pessoa que lhe ofereceria aquilo que ela queria e mesmo assim insisti no assunto, por pura teimosia (e talvez, por uma pitada de crueldade). Não agi certo com ela e a culpa tinha sido toda minha. Em troca, recebi o clichê.

O clichê em si não me incomoda. Mas nesse caso, ela deveria ter tomado a coragem e ter me dito a verdade: “Escute, o problema é você, não sou e estou indo embora”. Eu provavelmente não teria levado tanta sinceridade bem naquele momento, mas seria bom pra mim a longo prazo. No fundo, eu achava que tinha ido bem. Pensava: “Bem, o problema é com ela, não foi nada que eu fiz, então tudo bem”.

Então, uns anos depois eu fiz algo parecido com outra garota. Uma situação bem parecida, na verdade, caso como se eu tivesse arrumado uma ‘substituta’. Eventualmente, ela se cansou daquilo e em um belo dia ela me disse: “Precisamos conversar. Sabe, não é nada com você, é comigo mesmo”.

E daí eu perguntei: “Sério?”. E ela: “Bom, talvez não… Na verdade o problema não sou eu, o problema é você”. Perguntei o que eu havia feito para ela, embora já soubesse, provavelmente porque queria ouvir ela dizendo que a culpa não era minha. Sim, eu queria o clichê e não a responsabilidade por meus próprios atos. Ela enumerou uma série de coisas que eu tinha feito.

“Está vendo? É por isso que o problema é com você e não comigo” – ela disse, e ela estava certa. Não entendi aquilo muito bem na época, ficava pensando se havia algo errado com ela por dizer algo assim de uma forma tão direta.

Pouco tempo depois, arranjei outra garota. Dessa vez, o problema foi ela. Combinamos uma série de coisas e mesmo que não tivéssemos chegado a namorar, sentia que tinha que dar um ponto final no assunto. A chamei para conversar em nosso bar predileto, então batia a letra: “Escute, eu não posso mais ficar com você…”.

“Por quê?” – ela perguntou – “Qual o problema?”.

“O problema é você, não sou eu…” – eu disse para ela e depois entendi o que havia acontecido alguns meses antes.

Quando dizemos “não é você, sou eu” estamos terceirizando a culpa, muitas vezes. Se você combinou algo com alguém e cumpriu tudo aquilo que foi combinado e a pessoa não, você cumpriu com suas responsabilidades e ela não. Assumir a culpa e dizer que o problema é você e não a pessoa não vai lhe ajudar, assim como não vai ajudar a outra pessoa.

Na próxima vez em que pensar em dizer algo do tipo “ei, não é você, sou eu…” pense duas vezes. Em alguns casos sim, a responsabilidade é sua. Nesse caso, pode usar e abusar desse velho clichê dos términos. Entretanto, se a responsabilidade for da outra pessoa, deixe-a saber. Não terceirize a culpa dela para si mesmo. Nunca, em hipótese alguma, assuma a responsabilidade pelos outros. Faça com que eles saibam, faça com que eles compreendam, não para que eles se sintam culpados, mas para que eles sim possam assumir a responsabilidade por seus atos.

Aí sim sua passagem pela vida do outro terá valido a pena.

Aí sim, você estará respeitando a si mesmo.

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