O tal do João de Deus e “as 500 putas”

A primeira vez que ouvi falar sobre o tal João de Deus foi em um retiro espiritual no qual participava. Um colega que estava lá tinha ido até Abadiânia e rasgava elogios ao médium, ao qual tinha recorrido para tentar curar sua síndrome do pânico. Lembro que até pensei: “Quem sabe se algum dia eu estiver por aqueles lados, hein?”. Pesquisei um pouco sobre ele, vi as entrevistas da Oprah e tudo mais, achei bem interessante, mas não me prendeu a atenção o suficiente.

Nunca mais ouvi falar sobre o tal João de Deus, mas ele ainda estava ali. Agora ele está de volta, nas páginas dos jornais e nas manchetes da TV. E agora ele foi pintado como um demônio. Ninguém mais morre de amores por ele, exceto pelos fanáticos que circulam pela Casa de Dom Inácio de Loyola lá naquela cidadezinha de Goiás.

Até o fim da semana passada, se passavam das 300 denúncias. Agora já são 500. Mas essa história não começou ontem, não mesmo. Desde a década de 1980 o pseudo-médium é cercado por relatos de violência sexual e outros crimes, incluindo até um assassinato.

Bastou o relato de algumas vítimas na televisão há alguns dias atrás para que outras vítimas passassem a se posicionar e denunciar o tal do João de Deus. De lá pra cá, centenas de pessoas passaram a procurar a justiça, querendo de alguma forma que ele pague pelos seus atos.

E daí a gente descobriu que a história do tal do João de Deus não é nenhuma história de amor, graças e milagres. É uma história escrita com violência, estupros, abusos e moléstias. Com crianças, com mulheres adultas, com as próprias filhas. Tudo varrido para baixo do tapete. Bem, pelo menos até agora.

Algumas coisas realmente chamaram a atenção nessa história. A primeira, claro, é a demora com que as vítimas demoraram para denunciar o médium. Aparentemente, para algumas pessoas, o fato de ter havido um ‘efeito manada’ nas denúncias, as descreditam. É sério? Algumas dessas mulheres guardavam o ‘segredinho sujo’ de João de Deus com humilhação e pesar por décadas. Outras, morreram sem ver nem ao menos o nome do ‘santo’ se sujar. As pessoas deveriam enaltecer as mulheres que enfim romperam com o seu silêncio: elas estão impedindo que meninas e mulheres de todas as idades sejam abusadas e violentadas sexualmente por um homem que dizia fazer o trabalho de Jesus Cristo na terra.

A grande questão na história toda não se tornou a maldade do tal João de Deus, mas sim suas vítimas. Estamos falando de 500 denúncias. 500 DENÚNCIAS! E para algumas pessoas, tudo isso pode ser alguma fantasia, um anseio para extorquir esse ser divino que é o tal João de Deus, o homem que faz paralíticos andarem, que faz os cegos enxergarem e os surdos ouvirem.

Essa inclusive vai ser a linha de defesa do tal João de Deus: as vítimas. Não, eu não estou fazendo uma piada de mau gosto. Os advogados do médium irão usar aspectos como o passado das vítimas e o contexto onde se deram os episódios. Eles defendem inclusive que o tal João de Deus era um homem muito cobiçado e por isso pode ter sido ludibriado para performar sexualmente com essas mulheres. Sim, a argumentação de defesa coloca o tal João de Deus como vítima – e as suas algozes são aquelas ‘500 putas’ que tentam manchar a imagem do imaculado.

Outra coisa que chamou bastante a minha atenção no discurso de defesa do médium se deu quando foi dito que ele nem mesmo se lembrava de grande parte das mulheres que o denunciaram. Estamos falando de um homem que transformou o estupro e os abusos sexuais em um verdadeiro estilo de vida, algo cotidiano. Ele acordava, curava os pobres, estuprava mulheres, depois dormia para repetir tudo novamente no dia seguinte. ELE NEM AO MENOS SE LEMBRA DE TODAS AS MULHERES.

É imperdoável colocar o tal do João de Deus como uma vítima nesse caso. Estamos falando de 500 denúncias (não posso deixar de frisar esse número o suficiente), relatos contundentes que mostram que o homem abusou deliberadamente de pessoas em um momento de fragilidade, talvez no maior momento de vulnerabilidade de suas vidas. Ficar do lado de um homem que cometeu atos atrozes contra aquelas mulheres não é uma questão política ou ideológica, mas sim uma questão de caráter. Comprar o discursinho da defesa sobre as ‘500 putas’ e uma teoria da conspiração onde o coitadinho do tal do João de Deus foi enganado e nunca estuprou ninguém é, na verdade, um grande desserviço.

Eu não acho que devemos colocar o cara em uma fogueira e cobri-lo de gasolina. Ele tem o direito a se defender, devido processo legal e tudo mais. E ele exercerá esse seu direito, mesmo com indícios gravíssimos que revelaram uma história de abusos que perdurou por décadas e que, aparentemente, continuava acontecendo normalmente. Ficar do lado do tal João de Deus, é ficar do lado do estupro. Colocar a pecha de ‘putas’ nas 500 denúncias que recaem sobre ele, as desacreditando, é ficar do lado do estupro. Continuar pintando o tal do João de Deus como um homem santo e imaculado é afastar a possibilidade de que outros casos tão graves venham a conhecimento.

É importante criar um espaço para que as vítimas realmente possam se manifestar não apenas neste, mas também em outros casos. Se temos um caso com centenas de vítimas de abusos que demorou décadas para vir a tona, quantos mais ainda teremos a descobrir?

 

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