Essa é uma história sobre você! E começa logo depois da sua morte.

Essa é uma história sobre você. Sim, sobre você mesmo que está lendo ali do outro lado. E ela começa logo depois da sua morte. Ah, sim, você morreu, sinto muito por isso. Ahhh, você deve estar perguntando o que aconteceu. Permita-me explicar.

Num descuido ao atravessar a rua, você esqueceu de olhar para os dois lados e acabou sendo atropelado por um ônibus. Não se preocupe, você não sentiu nada. Foi apenas um impacto e depois foi como se você tivesse caído em um sono pesado. E daí você se foi… Deixou seu corpo ali no meio da rua, com o motorista do ônibus gritando por ajuda; e agora você está aqui comigo.

Foi um acidente e não tem nada de especial sobre ele. As pessoas morrem em acidentes todos os dias, não se dê tanta importância. Os médicos tentaram chegar o mais rápido possível, mas você já tinha ido quando eles chegaram. Você deixou pra trás algum dinheiro na conta do banco e sua família. E agora você está aqui! Não, eu não posso lhe mandar de volta, nem permitir que você volte para o seu corpo para dar um último adeus em quem você amava. Sinto muito!

“Mas o que aconteceu? Eu lembro que estava olhando o meu celular, tinha recebido uma mensagem… E daí eu fui atravessar a rua…” – você me diz.

E eu lhe respondo: “Pois é… E você sabe qual era a mensagem? Era apenas um aviso de cobrança da companhia de cartão de crédito. E por causa daquela pequena distração, você acabou esquecendo de olhar para os dois lados da rua ao atravessar”.

“E daí veio o ônibus”.

“É, e daí veio o ônibus”.

Então você olha para todos os lados e descobre que não existe nada. Apenas eu e você em um vazio infinito. E você me pergunta: “Mas que lugar é esse, afinal? Existe vida após a morte? É isso? Eu vim para o céu? Ou esse é o inferno?”.

“Mais ou menos” – eu lhe respondo.

“Você é Deus?” – você me pergunta então.

E novamente eu lhe respondo: “Mais ou menos”.

E você continua tentando adivinhar as respostas, mesmo sem perceber que não está fazendo as perguntas certas. É claro, você está em um estado de confusão, com preocupações relacionadas à sua família e às pessoas que você ama. Não se preocupe, tudo ficará bem com elas. Não se preocupe consigo também. Tudo vai ficar bem. Sua família vai chorar por alguns dias, ficar desolada, mas um dia eles começarão a seguir em frente. Você não vai ser esquecido, mas a sua partida será aceita. E eles sempre irão olhar para os dois lados quando estiverem prestes a atravessar a rua.

Para você, eu não me parecia com Deus nem aquele lugar se parecia com o céu ou com o inferno. Você me perguntou se era o purgatório e eu lhe respondi que “mais ou menos”, mas na verdade aquele vazio parecia mais com a sala de espera de um dentista, sem as revistas velhas. Tudo o que havia ali era eu. E você tinha acabado de chegar com suas perguntas.

Eu lhe seguro delicadamente pelo braço e começo a caminhar com você.

“Para onde estamos indo?” – você pergunta, então.

“Para nenhum lugar em particular. Só quero caminhar com você enquanto conversamos”.

“E onde isso termina?”.

“Termina com você indo para outro lugar. É hora de você começar de novo”.

Você me olha com alguma insatisfação, como se estivesse esperando por algo a mais. Talvez algum tipo de prêmio ou algo assim? E então você diz:

“E de que importa? Você me manda para algum lugar e eu viro o quê? Um bebê? Então todas as minhas experiências e tudo o que eu fiz na minha vida deixa de importar”.

“Nada disso” – eu lhe respondo: “Você tem dentro de você todo o conhecimento e todas as experiências de suas vidas passadas. Você apenas não consegue se lembrar delas agora. Sua alma é mais abundante, bela e magnífica do que você jamais poderia imaginar. A mente humana conta apenas com uma pequena fração de quem você é. É como colocar o pezinho no mar para perceber se a água está quente ou fria. Você coloca seu pé na água e quando o trás de volta, você ganhou todas as experiências que teve e as levará consigo”.

Tomado por curiosidade, você me pergunta: “E quantas vidas eu tive até hoje?”.

“Muitas, incontáveis”.

“E como será minha vida agora? Eu volto como um homem ou como uma mulher? Eu poderia ser um animal? Eu posso escolher o animal?”.

“Tudo é possível. Mas dessa vez, você será uma camponesa chinesa que vai nascer no ano de 540”.

“O QUÊ?” – você indaga, em choque: “Você está me enviando em uma viagem do tempo?”.

“Acho que podemos dizer tecnicamente que sim. O tempo como você conhece existe apenas no seu universo. As coisas são diferentes de onde eu venho”.

“E de onde você vem?” – pergunta você, ainda em total estado de curiosidade.

“Eu venho de outro lugar. Um lugar bem diferente. E existem outros como eu! Eu sei que você gostaria de saber como é lá, mas eu honestamente não acredito que você conseguiria compreender”.

Você fica em silêncio por um instante. E depois diz:

“Espere aí! Se eu sou mandado para outros lugares e tempos, eu posso ter interagido comigo mesmo em algum ponto?”.

“Sim! – eu respondo – acontece o tempo inteiro. E suas duas vidas estão cientes apenas de suas próprias vidas individualmente. Vocês não fazem a menor ideia do que está acontecendo. No fundo, isso chega a ser engraçado quando eu olho daqui”.

“E qual o ponto disso tudo?”.

Você queria saber o sentido da vida. Eu tento lhe desvincilhar de sua curiosidade, mas você é persistente. Eu já sabia que você era persistente. Então eu lhe respondo: “O sentido da vida, a razão de existir tudo o que existe no universo, é fazer com que você cresça”.

“Você está falando da humanidade? Quer que a gente cresça? Como assim?” – você pergunta, em um estado de euforia que se mistura com sua curiosidade.

“Não, apenas você. Todo esse universo foi feito para você. A cada nova vida, você cresce um pouco e se torna uma parte maior de tudo o que você é”.

“Só eu??” – você pergunta sem entender – “E todos os outros?”.

“Não existe nenhum outro. Aqui e agora, só existimos eu e você”.

Você me encara sem piscar. A cada segundo você tem mais perguntas e parece não conseguir compreender as respostas. Então você insiste: “Mas as pessoas na terra… Minha família, meus amigos…”.

“Todos são você. Todos são diferentes versões de você”.

“Você quer dizer… Que eu sou todos? Todo humano que já viveu é… sou… eu?”.

“Sim”.

“Eu sou o Martin Luther King?” – você pergunta então.

“Sim” – lhe respondo – “mas você também é Charles Manson.

“Então eu sou Hitler?”.

“Sim, você é Hitler. E você também é todos os milhões de pessoas que Hitler matou”.

“Eu sou Jesus?”.

“Sim. E você também é todas as pessoas que o seguiram. E também as pessoas que não o seguiram. Você é a pessoas que acreditam nele e também as pessoas que não acreditam”.

Pela primeira vez, você ficou em silêncio. Já estava na sua hora de ir, mas mesmo assim eu senti uma obrigação de lhe dizer mais alguma coisa:

“Cada vez que você vitimiza alguém, cada vez que você machuca alguém, você está fazendo isso consigo mesmo. Cada ato de bondade que você pratica, você pratica para você mesmo. Cada momento feliz e triste experimentado por qualquer ser humano foi experimentado por você”.

“Mas qual é a razão?” – você volta a perguntar tomado por curiosidade – “Por que estou fazendo isso?”.

Lhe respondo: “Tudo isso acontece para que um dia você se torne alguém como eu. É isso que você é. Você é alguém como eu. Eu só preciso que você cresça”.

“Então eu sou um tipo de deus?”.

“Mais ou menos” – eu lhe respondo – “Mas não, ainda não. Você ainda está crescendo. Uma vez que você tenha vivido todas as vidas humanas ao longo de todo o tempo, você terá vivido o suficiente para nascer”.

Lhe toco no ombro e você sabe que não há mais tempo para nenhuma pergunta. E assim, do nada, eu lhe mando para sua próxima vida.

 

Esse conto foi baseado no conto "The Egg", publicado por Andy Weir. Se você desejar, pode ler a versão original do autor aqui.
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