O Cemitério dos Relacionamentos

No ano de 2014 eu me vi forçado a encerrar um relacionamento. Não havia acontecido nada de mais e talvez esse fosse o problema. Na época, eu fugia dos relacionamentos estáveis como o diabo foge da cruz. Se não havia nada de ruim acontecendo, eu acreditava que não era a escolha certa. Sentia a necessidade de me revoltar, de brigar, de discutir. Com ela, não havia nada disso. Sempre que eu tentava iniciar uma discussão com ela, ela dizia: “Bem, você pense como quiser. E eu continuarei pensando como eu já penso”.

Nos encontramos no bar e pedimos cerveja barata. Contei para ela que aquilo não estava funcionando para mim e que a estabilidade forçada parecia estar matando a minha independência. Isso pode soar um bocado egoísta (e talvez tenha sido), mas o fato é que naquela época eu realmente não queria ter um relacionamento. Eles eram como armadilhas, nas quais volta e meia eu caia, sem qualquer intenção. E quando eu me via preso naquela rede de pescador, me debatia como um peixe que queria voltar para o oceano, então eu arrumava a primeira desculpa possível para sair daquela situação.

Ela ficou em silêncio por alguns minutos, depois deu um gole na cerveja.

-Bem, você sabe o que acontece agora… – ela disse.

-O quê? – perguntei.

-Vamos para o cemitério dos relacionamentos.

-Cemitério?

Então ela me explicou sua teoria: na visão dela, sempre que duas pessoas encerravam um relacionamento, as duas pessoas iam para o cemitério. Primeiro, elas faziam um funeral, se despedindo do relacionamento. Depois, elas o sepultavam. Basicamente, o cemitério dos relacionamentos funcionava como um purgatório, onde você continua tentando viver o relacionamento mesmo o tendo encerrado.

Demora um pouco para tirar alguém de nossas vidas, não demora? Demora para conseguirmos tirar o cheiro de nossos lençóis e as marcas de nosso corpo. A única coisa que fica, depois que você vai para o cemitério, são as memórias (e um ocasional fio de cabelo dela que você encontra no seu banheiro, meses depois).

Ela tinha deixado algumas coisas na minha casa. Nada de importante: um batom, uma blusa de dormir, uma escova de dentes barata que ela usava quando dormia por lá. Então eu perguntei:

-Bem, acho que eu deveria ter trazido suas coisas de volta…

-Não precisa! – ela disse – Faz parte do falecimento. Você precisa se livrar dessas coisas, como se precisasse superar uma morte. Não importa se você vai sofrer com o fim ou não. Você precisa se livrar daquelas coisas e colocá-las onde elas devem estar.

-E onde elas devem estar?

-No caixão, embaixo da terra.

Ela tinha encarado tudo aquilo de um jeito muito diferente do que eu esperava. E tinha me ensinado uma lição. Sempre há esse momento quando estamos terminando um relacionamento em que pensamos em dar um passo para trás, desistir e levá-la às pressas para a nossa cama. Mas eu sabia que aquilo não era para mim, ao menos não naquele momento. Não poderíamos ir para o motel. Precisávamos ir ao cemitério enterrar o que existia de nós mesmos.

-E todos os relacionamentos vão para lá? – indaguei.

-Somente os que morrem! – disse ela, sorrindo.

Terminamos em bons termos. Mesmo que a iniciativa tivesse sido minha, ela agiu como se já esperasse. Talvez, em segredo, ela pensava em fazer a mesma coisa. Eramos completamente incompatíveis, por estarmos em momentos completamente distintos na vida. Contamos algumas piadas, jogamos um pouco de conversa fora e terminamos nossa cerveja. E aí ela se foi.

Enquanto eu continuava bebendo sozinho na mesa de um bar vagabundo, me peguei pensando no cemitério. Eu já estava nele, me despedindo dela, mas o imaginei como um lugar real que poderia visitar na vida. Fiquei pensando nas lápides de todos os relacionamentos que eu enterrei outras vezes, alguns por iniciativa própria e outros contra à vontade. E pensei no fim que embora todos os relacionamentos tenham sido importantes eles tinham ido para o mesmo lugar, enterrados em covas rasas que eu visitava cada vez menos. É o mesmo que dizem sobre as pessoas, sabe? Não importa o que você fez ou quanto dinheiro você tinha, no fim das contas vamos todos para o mesmo lugar. O rico e o pobre enterrados lado a lado. É de se pensar.

Eu queria ter perguntado à ela como se fazia para evitar que um relacionamento fosse para o cemitério, mas ela provavelmente também não sabia. Eu estive naquele cemitério outras vezes, depois daquela, para enterrar outros relacionamentos e memórias. E creio que acabei descobrindo como evitar aquilo: eu precisava fazer a coisa oposta, não permitir que um relacionamento morresse na primeira gripe ou apunhalá-lo pelas costas quando as coisas não estivessem do jeito que eu desejava.

E todos nós estivemos lá, não estivemos? Enterrando nossas memórias e lembranças. Por vezes, enterrando mesmo nossos sonhos e desejos. Às vezes, você até mesmo precisa ir sozinho até lá. E depois você continua seguindo em frente e tenta de novo. Por outras vezes, você se ajoelha em frente ao túmulo desejando que ele retorne à vida. Você vai até lá por diferentes motivos, mesmo sem perceber que está indo.

Quem sabe, quando você menos esperar, foi até o cemitério dos relacionamentos pela última vez.

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