Das jornadas distintas que se encontram, dos reflexos no espelho e do número ‘8’

Você sabe qual é o meu sonho? Bem, ao menos era viajar pelo mundo com algum dinheiro no bolso (nenhuma extravagância ou luxo) e conhecer as pessoas, os lugares e até mesmo comidas que eu não gostaria de provar. Queria conhecer a Torre Eiffel, mas também os becos de Paris. Tudo numa mistura de “Na Natureza Selvagem” com Nietzsche dormindo em albergues caindo aos pedaços cercado por estranhos. Ok, talvez não seja a melhor forma de resumir “um sonho”, mas você teria que andar nos meus sapatos para entender.

Lá pelos cantos de 2012 ou 2013 eu estava completamente falido e conheci uma garota em uma entrevista de emprego. Ela era bonita, muito bonita! E tinha algo nela que me cativava. Acabei indo para outro emprego de redator na semana seguinte, mas mesmo assim mantivemos contato. Eu achava que algo iria acontecer ali, inclusive escrevi uma espécie de conto erótico para ela em algum momento, de modo espontâneo no meio da conversa.

Não aconteceu, mas foi por um bom motivo: ela foi viver o meu sonho. Bem, na verdade não tem nada a ver com o meu sonho em si, mas sim com o sonho dela. Ela simplesmente passou a viajar o mundo do dia para a noite e a parte mais encantadora da história dela é que ela nunca parou. Ela tinha ido parar em Portugal e estava prestes e entrar em um empreendimento, mas acho que a estabilidade a assustou um pouco e ela se mandou para o Chipre. Quantas pessoas você conhece que foram visitar o Chipre, passar algum tempo lá? No Brasil, a maior parte da população nem sabe que o Chipre existe.

E nós mantivemos contato, de uma forma completamente diferente das primeiras vezes. Nunca mais ‘flertamos’ e foi isso que tornou a dinâmica do relacionamento mais interessante. De vez em quando, passamos uns bons meses sem nos falarmos, pois não há pressão alguma para tal. Em outras vezes, conversamos por dias a fio, sobre os nossos problemas e os problemas do mundo.

As coisas aconteceram e o meu sonho de viajar o mundo com pouco dinheiro acabou tendo que ser adiado por uma década ou até que eu esteja pronto. Ela o estava vivendo. E eu achava que qualquer pessoa que conseguisse realizar essa proeza era um bocado sortuda e não teria nenhum problema para lidar na vida. Ledo engano!

Temos conversado bastante nos últimos dias, mas o sonho que um dia fora minha prioridade (e que apenas não se concretizou porque na época eu tinha uma conta bancária negativa que me impedia até mesmo de almoçar fora, embora não me impedisse de beber todos os dias e me entupir com companhias que às vezes pouco significavam) está fora dos tópicos. Falamos sobre, às vezes, mas o foco não é esse.

Em algum momento na jornada andarilha dela, ela se apaixonou. E ela não parecia ser o tipo de garota que se apaixonava quando nos conhecemos, mas isso foi há muitos anos. Ela conheceu um cara e gostou bastante dele, mas as coisas da vida aconteceram e o cara acabou se afastando por algum motivo. Ela não ficou apenas em um breve período de desolação, como manteve a chama acesa esperando por uma oportunidade. É bem verdade que quando gostamos de alguém a pessoa nos marca com brasa como se fossemos gado, não é? Não existe outra pessoa e quando passa a existir, ela se torna “mais ou menos” em questão de dias, às vezes de horas.

Toda a questão de nossos assuntos se deve ao fato de que eu tive problemas sérios para consertar meu relacionamento e ela está passando por alguns bocados para se resolver com quem ama lá pelas suas bandas. Hoje ela perguntou como eu estava em uma escala de 0 a 10 e eu respondi 8. Retribui a pergunta e ela deu a mesma resposta. Ela está ‘8’.

O que falta para ela ficar 10? Falta quem ela ama.

O que falta para eu ficar 10? Nem eu mesmo bem sei, mas creio que estar viajando o mundo seria uma forma de aliviar a agonia do cotidiano e o meu estresse com o país em que vivo.

Você entende o que acontece? Nós talvez até trocaríamos de lugar em um daqueles filmes bizarros com o Tony Ramos por algumas horas se fosse possível. Mas creio que ela não está disposta a abrir mão de continuar perambulando graciosamente pelo mundo e nem eu estaria disposto a abrir mão de um amor que tanto sangrei para conquistar para seguir um sonho que nesse momento só se transformaria em um gesto egoísta. Não, não poderíamos trocar de lugar se fosse para sempre. Nem iríamos querer isso.

Ao mesmo tempo, estamos vivendo o sonho um do outro de um modo distinto. E isso não é necessariamente uma coisa ruim. Estamos, em polos opostos do mundo, ‘8’. Queríamos estar ’10’, mas sempre falta alguma coisa. Para mim, o sonho de conquistar o mundo de um modo parecido com o qual ela o conquista. Para ela, o sonho de conquistar um coração de um modo parecido com o qual eu conquisto. Seres incompletos por natureza, seres ‘8’.

E está tudo bem em ser ‘8’. Todos nós já estivemos ‘3’, já estivemos ‘2’, já estivemos ‘1’. Tem uma porção de gente por aí que está ‘0’, a um passo do suicídio.

A grande questão é que eu consigo ver o inverso: consigo me ver partindo, lá por 2013, e ela ficando por aqui. E eu, em 2019 querendo um amor, quando ela já o tem. Eu viajando e ela adiando o seu desejo em nome da estabilidade. Coisas completamente inversas, mas que se relacionam. Consigo me ver pedindo conselhos para ela, de como resolver o eterno pepino que é um relacionamento. Posso não ser um especialista no assunto, mas o fato de eu ter mantido um relacionamento por tanto tempo para quem me conheceu lá por 2013 deve ser espantoso, quase um ‘milagre’ tão grande quanto continuar viajando pelo mundo durante todo esse período.

Somos espelhos que se encontram em algum lugar no meio daquelas conversas: creio que eu posso ver uma versão de quem eu poderia ter sido, como ela também pode ver uma versão dela mesma e de quem ela poderia ter sido. E isso é uma coisa maravilhosa! Isso nos ajuda a estar ‘8’, e não ‘3’ ou ‘4’. Podemos simplesmente falar sobre as coisas, sem qualquer interesse na conversa que não seja sobre a própria conversa em si.

Tenho pra mim que em algum momento estaremos ’10’, mesmo que por diferentes motivos e em locais completamente diferentes. Acredito que os sonhos que ela ainda tem irão se realizar, assim como os meus. O relógio continua tocando os ponteiros e, por mais que achamos que a vida termina hoje, ela quase nunca termina quando estamos esperando pelo fim. Há tempo de sobra para que ela conquiste o coração que a transformou. E o mundo não está indo a lugar algum!

Ela me mandou uma foto de sua sacada, lá no Chipre. A lua estava enorme! Tão enorme quanto o tempo que temos para perseguir aquilo que queremos. Para eliminar as coisas que nos fazem estar ‘8’, quando poderíamos estar ’10’.

Não existe um “e se…”, apenas o aqui e agora. E é no aqui e no agora que realizamos e deixamos de realizar. Um passo em outra direção, continua sendo um passo. O que não podemos fazer é deixar de nos movermos por completo. E se há uma certeza nessa história toda que eu lhe contei é que todos os personagens envolvidos estão se movendo, tentando contornar o ‘8’.

Somos, de alguma forma ou de outra, o 8 do infinito, por mais clichê que seja escrever essas palavras.

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