Juventude doente: a nova geração e o Suicídio

 

Acho que todo mundo já pensou em se matar uma vez ou duas, certo? Não é algo que você realmente pretende fazer, mas de alguma forma você pensa: “Bem, se tudo der errado, essa talvez seja a solução”. Você provavelmente não vai fazer isso, está apenas brincando com a escuridão que há dentro de si, pois você não a conhece.

Eu morava no interior e tinha lá por uns oito anos de idade quando ouvi falar em suicídio pela primeira vez. Era uma cidade onde as pessoas só morriam de velhice e então me surpreendi ao ouvir falar que o tio de uma colega minha da escola “se matou”. Eu lembrava de ter encontrado ele por aí uma ou duas vezes e ele sempre era sorridente. Não consegui entender exatamente como alguém se matava. Tudo o que eu consegui descobrir em minha investigação foi que tinha algo a ver com uma corda no pescoço e com dívidas que ele não conseguia pagar.

Nos últimos dois anos, dois amigos meus e uma amiga tiraram a própria vida. Eu não entendi exatamente porque. Minha amiga se medicava há muitos anos e parecia ter superado a depressão, embora há algum tempo falasse muito sobre suicídio. Eu inclusive já escrevi sobre ela aqui. Outro de meus amigos teve um problema grave com drogas, mas ele realmente tinha superado. Aparentemente, em algum ponto as coisas deram errado e as drogas foram o atalho que ele encontrou para falar com a Dona Morte. O terceiro, eu nem sei explicar e não entrarei em detalhes, mas ele vivia na minha antiga casa e estava sempre sorrindo e fazendo planos. Parecia que ele queria viver para sempre. E ele tirou a própria vida.

O suicídio se agravou nos últimos anos. Se tornou uma epidemia, um fenômeno global. As pessoas se matam o tempo inteiro e nós ficamos sabendo disso. As pessoas falam sobre isso o tempo todo. De vez em quando, a gente faz até uma brincadeira a respeito, talvez apenas por não sabermos exatamente como lidar com o problema. E sim, é um grave problema de saúde pública. Existem pais que se matam e deixam os filhos. Filhos que se matam e abandonam as mães. E é algo que não podemos compreender.

Tem gente que parece ser bem mais feliz que a gente e comete suicídio. Tem gente com muito mais dinheiro no bolso do que a gente e comete suicídio. Tem gente que parece ter tudo na vida e comete suicídio. Alguém está realmente seguro, imune dos pensamentos suicidas?

Há três anos eu tive um surto depressivo e realmente comecei a flertar com o suicídio. Nem de longe tentei fazer algo ou pensei a respeito, mas algo dentro de mim dialogava com a ideia de tirar a própria vida. E foi nesse momento em que tudo desandou e minha vida virou de cabeça para baixo. Me decepcionei com uma série de pessoas e comigo mesmo. Se eu fosse tirar a minha própria vida, eu provavelmente faria naquele momento. Mas havia algo dentro de mim que dizia: “Que se foda! Vamos resolver essa merda toda aí, só pra provar que podemos”.

O que dizem as vozes dentro das pessoas que realmente tiram a própria vida? Será que elas não conseguem mais ouvi-las? Ou as vozes também foram contaminadas? Onde foi parar a intuição, o instinto de sobrevivência? Onde diabos foi parar a vontade de viver da geração atual? Eu vejo gente muito mais jovem que eu tirando a própria vida por problemas na escola, por não conseguir se encaixar. Onde diabos foi parar a vontade de ver onde as coisas vão dar? Será que todos se deparam com um poço sem fundo?

Nietzsche dizia que quando você olha para o abismo, o abismo olha de volta para você. Será que é isso? Quantas vidas de pessoas que amamos perderemos pelas mãos das próprias pessoas que amamos?

Isso é preocupante sobretudo com os mais jovens. Onde foi que erramos? Somos uma sociedade tão doente assim que nem ao menos vale a pena dar uma chance para a vida? No que a vida se transformou? Tantas perguntas, mas nenhuma resposta. Não encontramos essas respostas nas cartas de suicídio deixadas para trás. Quando obtemos uma resposta, restam 1001 outras perguntas não respondidas. E simplesmente não entendemos o que está acontecendo.

É um momento terrível onde tirar a própria vida se tornou algo mais. Não sabemos pelo que uma pessoa à beira do suicídio está passando, nem mesmo sabemos por muitas vezes que ela está à beira do suicídio. Ela está rindo com você num bar em um belo dia e BAM! Você descobre que ela se atirou de um carro em movimento.

O suicídio pode parecer algo egoísta, uma resposta para as questões que não conseguimos responder. Creio que não funciona bem assim e que ver as coisas dessa forma, sim, seria uma forma de egoísmo. Você realmente tem ouvido as pessoas quando elas falam sobre seus problemas? Ou você simplesmente adere irresponsavelmente à campanha da moda do Facebook? Setembro amarelo e tudo mais?

Nós não somos responsáveis por zelar pela vida de ninguém, no fundo. Mas nós o fazemos, pois vemos isso como uma de nossas missões. Eu não quero nem que meu pior inimigo tire a própria vida e, caso eu pudesse fazer algo para impedi-lo, eu certamente o faria. Não podemos fazer muita coisa, mas podemos ouvir essas pessoas.

O suicida (ou o potencial suicida) não é uma pessoa egoísta. Não é uma pessoa má ou emocionalmente irresponsável. Ele é uma pessoa doente e é isso que precisamos compreender. E como para todas as doenças, existe uma cura, uma cura que ainda não conhecemos muito bem. Mas podemos fazer o pouco que está ao nosso alcance… Ouvir a pessoa, dar-lhe a atenção e o amor que ela precisa. E principalmente: recomendar ajuda especializada!

Se você chegou a esse texto e está tendo pensamentos que não deveria, procure alguém próximo. Se não tiver ninguém disposto a ouvi-lo ou se você simplesmente sentir que não é capaz de conversar com ninguém a respeito, ligue para o Centro da Valorização à vida pelo 188, ou converse no bate-papo com alguém por aqui. Eu mesmo me coloco à disposição por aqui, se você sentir essa necessidade. Mas não se esqueça: ouvidos e braços amigos não são profissionais. Procure um profissional da área.

Ao pouco que me cabe lhe dizer, a vida é longa e se torna um bocado complicada às vezes. Mas quer saber do que mais? Nenhum problema é grande demais para que você não possa superá-lo. Você pode domar sim os mais brutais e selvagens dos seus sentimentos. E você pode, sim, sobreviver, se você estiver disposto a dar uma chance para você mesmo.

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