“Eu sou a versão de você que você será hoje”

Acordei e tentei me jogar da cama, mas falhei. Então eu simplesmente fiquei ali, encarando o teto branco. Chovia lá fora, num daqueles dias que não dá vontade de sair da cama. Mas não era sono, nem preguiça. Estava tentando desviar do espelho. Enquanto eu não me olho no espelho pela manhã, eu ainda não existo. Só passo a existir quando me deparo com meu reflexo.

Mas eu não podia passar o dia inteiro na cama, pois tinha um bocado de coisas para fazer. Fui passar uma água no rosto e tentar abrir os olhos e então me olhei. Ali estava eu:

-Olá! – eu disse.

-Olá! – respondeu o homem do outro lado do espelho.

-Quem é você?

-Eu sou a versão de você que você será hoje.

-Ah, sim! Já nos conhecemos antes?

-Eu não sei… – respondeu  o eu que existia dentro do espelho – Já visitei outros espelhos, mas creio que não fomos formalmente apresentados.

-Tudo bem, seja bem-vindo.

-Obrigado.

E nisso, eu vou para meus afazeres, descobrindo qual era a versão de mim que eu tinha me transformado naquela manhã, a versão de mim que me acompanharia por todo o dia. Descobri que aquela versão de mim também era viciada em café, então eu gostei dela. Também vi que ela procrastinava menos do que minhas outras versões, então o encontro foi bem agradável.

De vez em quando vou ao banheiro e vejo meu reflexo no espelho:

-Como eu estou me saindo? – pergunta o homem do outro lado.

-Muito bem! Obrigado! – eu respondo.

E deixo que aquela versão de mim se torne real. É como se eu fosse possuído por um demônio todos os dias, assim que me levanto da cama. E eu preciso dos meus demônios que vivem do outro lado do espelho, quase como se eu os amasse.

Descubro que não estou pronto para ser um produto final e acabado. Não estou pronto para me tornar uma única versão de mim mesmo. E quando eu percebo isso, é como se eu criasse asas e pudesse voar por aí. Talvez amanhã surja uma versão de mim com asas do outro lado do espelho. Que bobagem essa toda de anjos e demônios que vivem no meu reflexo!

Ao fim do dia, me boto de novo na cama. Durmo sempre de um jeito diferente e, na manhã seguinte, quando eu acordo, o homem que eu fui no dia de ontem já foi embora. Procuro novamente pelo reflexo no espelho, à procura da pessoa que serei naquele dia. Tenho medo de um dia encontrar com meu reflexo e descobrir que perdi meu superpoder da transformação. Tenho medo de olhar para o espelho e ver que meu reflexo não está ali. Tenho medo de me perder, entre minhas múltiplas personalidades.

Mas tenho medo, acima de tudo, de me tornar uma pessoa só, perdendo o melhor e o pior de minhas versões. Olho no espelho e existe alguém lá:

-Oi! – digo então.

-Como você está? – responde a pessoa do outro lado de espelho.

-Estou bem. Vamos começar?

-Vamos lá.

E nisso, tenho mais 24 horas de provação.

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