Chafurdando na Lama (ou “Os Contos do Homem Amputado”)

“No fundo, eu acho que gosto da lama humana”, pensava o homem enquanto encarava o copo sujo, aguardando que o cara do balcão viesse reabastece-lo. Nenhum de seus amigos ou familiares entendiam porque ele vivia daquele jeito: Eduardo tinha nascido em um verdadeiro berço de ouro, sendo herdeiro de uma fortuna inestimável do pai que atuava no ramo petroleiro. Os dois irmãos e a irmã trabalhavam com o pai, ganhando bons salários em cargos de chefia, enquanto continuavam estudando sem parar.

O cara do balcão logo chegou, enchendo o copo vazio com um conhaque barato que vinha em uma garrafa de plástico. O nome do bar não poderia ser mais propício ao homem e tudo o que ele viveu durante a vida: O Chiqueiro. O Chiqueiro era um bar cercado de homens velhos e fedorentos, a maior parte sem dentes. De vez em quando, aparecia uma mulher no bar, sempre uma mulher durona, a qual provavelmente poderia dar uma surra em Eduardo se ele se metesse com ela. Os poucos funcionários do bar não diziam “obrigado” e as pessoas que o frequentavam não conheciam a palavra “por favor”.   E era isso que funcionava para Eduardo.

-Acha que existe um Deus lá em cima? – perguntou então ao cara do balcão.

-Não sei, não me importa. Apenas beba.

Do seu lado, havia um homem que não tinha um braço. Todos o chamavam de Cotoquinho e ele também não era dos mais falantes. Sempre que Eduardo ia para o Chiqueiro, ele se sentava do lado do Cotoquinho e, em silêncio, desfrutavam drinques baratos em copos sujos. Cotoquinho apontou para o lugar onde um dia ficava o braço, o exibindo em meio à fraca iluminação do bar, então disse:

-Se houvesse um Deus, haveria um braço aqui.

Eduardo ficou surpreso, pois anos após chafurdar na lama do Chiqueiro ao lado de Cotoquinho, nunca o tinha ouvido dizer qualquer coisa. Ele simplesmente apontava para as garrafas de bebida de sua preferência e o cara do balcão as trazia até ele. Pagava sempre em dinheiro, às vezes catando moedas no bolso para fechar a conta. Quando ele não tinha o suficiente, o cara do balcão simplesmente falava para ele pagar quando pudesse. Se viu então, ele que gostava da lama humana, diante de uma oportunidade de ouro: poderia conhecer Cotoquinho, descobrir como ele tinha perdido o braço, descobrir onde ele morava.

-Talvez Deus tenha tirado o seu braço por um bom motivo… – disse Eduardo então.

O Cotoquinho não olhou para Eduardo em momento nenhum, estando apenas encarando o fundo do bar onde ficavam as garrafas de bebida barata e alguns vidros de conservas que pareciam estar lá há décadas.

-E o que diabos Deus iria querer com o meu braço? Ele não tem um braço para Ele? E de tantos braços que ele poderia arrancar por aí, por que arrancou logo o de um homem moribundo como eu? Eu já estava fodido quando tinha um braço. E Ele não me deu nada em troca, absolutamente nada. Se houver um Deus, é um Deus perverso, que saí amputando braços por aí com uma serra elétrica.

Por dentro, Eduardo sorriu ao ver que Cotoquinho estava falante naquele dia:

-Foi assim que você perdeu seu braço? Acidente com uma serra elétrica?

-É só uma figura de linguagem… – continuou o homem sem braço – O meu braço simplesmente caiu.

-Como assim? – indagou Eduardo.

-Na época eu trabalhava em uma fábrica de tecidos e o trabalho consistia basicamente em levantar caixas e leva-las de um lado para o outro. A empresa era tão mão-de-vaca que nem ao menos tinha uma empilhadeira, então todo o trabalho era manual. Num dia, meu braço começou a doer e eu não conseguia mais levantar caixa nenhuma. Então fui ver o médico. Ele me examinou e não constatou nada de errado. Disse que era apenas uma tensão temporária e alguns dias depois meu braço deixaria de doer e eu poderia voltar ao trabalho.

-E aí? O que aconteceu depois?

-Enquanto eu andava pelas ruas dois ou três dias depois, percebi que meu braço estava ficando escuro, como se estivesse apodrecendo. Nisso, eu voltei no médico. Ele tirou alguns raios X e me pediu para retornar alguns dias depois. Foi exatamente o que eu fiz. A cada dia que passava meu braço ficava mais escuro. Logo, começaram a aparecer algumas feridas, mesmo sem que eu tivesse o tocado. Comecei a perder o movimento da mão esquerda. Quando voltei ao médico, ele disse que simplesmente não havia nada de errado com o meu braço. Me deu alguns remédios sem nem me explicar o que eram ou por quanto tempo eu os deveria tomar.

-E depois? – questionou Eduardo, intrigado com a história do Cotoquinho.

-Acabei sendo demitido da fábrica. Eles diziam que eu estava inventando aquilo tudo, mesmo comigo mostrando o braço preto, cheio de feridas e com dedos que não se moviam. Como eu não tinha nenhum laudo médico que dissesse que havia algo de errado comigo, eles me mandaram embora e não havia nada que eu poderia fazer. E foi aí que aconteceu…

Cotoquinho deu um longo gole no copo, eliminando todo o seu conteúdo. Nisso, apontou para a garrafa de rum e o cara do outro lado do balcão rapidamente o encheu novamente. O cara do balcão não dizia nada, mas Eduardo conseguia perceber que ele estava à espreita, querendo saber a história do homem que tinha perdido o braço. E ele continuou:

-Eu fui ao banco tentando tirar o pouco dinheiro que eu tinha na conta em que depositavam seu salário, mas eles simplesmente se recusavam. Eles diziam que eu não poderia tirar todo o conteúdo. Me exaltei e logo o gerente também apareceu gritando comigo. Comecei a me sentir mal, como se tivesse tomado um murro no estômago. Toquei no braço preto que eu escondia por baixo da jaqueta, pois senti que ele estava quente. E nisso, eu desmaiei. Você sabe onde eu acordei?

-No Hospital? – apostou Eduardo na opção mais óbvia.

-Nada disso. Clínica Veterinária.

-Clínica Veterinária?

-Clínica Veterinária… – continuou Cotoquinho – Quando eu desmaiei o próprio gerente que discutia comigo foi ao resgate. Segundo eles, eu estava completamente desacordado, sem muito pulso e suando como um porco. Por isso, eles tiraram minha jaqueta e viram o braço preto. Eles me contaram que o braço preto estava ‘desgrudando’ do meu corpo. Sentiam que o osso estava soltando. O hospital ficava longe e se me levassem até ele, eu provavelmente perderia o braço. Chamaram uma ambulância e pediram que ela me encontrasse no veterinário. Quando eu acordei, em meio a latidos e miados, eu achei que estava morto e que tinha reencarnado, mas não tive essa sorte.

-E quando você acordou…

-Já estava sem o braço. O veterinário que me amputou disse que o meu braço esquerdo parecia gangrenado e que era possível ver os tons escuros se espalhando pelo resto do corpo. O gerente, um homem que nem mesmo eu conhecia, autorizou a amputação. Quando acordei, o gerente já havia dado no pé e a ambulância já tinha chegado. E nisso eu fiquei sem emprego, sem conseguir sacar minha grana e sem braço.

-Cacete, cara… E você não processou ninguém?

-O gerente acabou cometendo suicídio semanas depois, quando descobriram que ele estava roubando do banco. Era por isso que ele não conseguia me entregar todo o meu dinheiro, entende? Não estava tudo na conta. E o veterinário acabou voltando para a Índia, seu país natal. Eu tentei processar o médico que me atendeu e que disse que não havia nada de errado comigo, mas os peritos do tribunal analisaram meus exames e também não constataram nada. A fábrica de tecidos fechou depois de alguns meses, então também não consegui a processar.

Cotoquinho finalizou mais um copo e nisso o homem do balcão já foi recarrega-lo:

-Por conta da casa! – disse o homem do balcão.

Eduardo não sabia se poderia ou não acreditar na história do Cotoquinho e de sua anomalia médica que acabou fazendo com que um veterinário indiano apontasse seu braço putrefato. Sabia que quando chafurdava na lama dos bares vagabundos, o que mais ouvia eram histórias amaldiçoadas e mentirosas.

-Então, respondendo à sua pergunta. Se houvesse um Deus, haveria um braço aqui. E se há um Deus que tudo sabe e que tudo vê, ele simplesmente me torturou, por mera maldade. Ele nem ao menos teve a decência de me matar ou de permitir que eu processasse alguém para ficar rico. Não consigo mais trabalhar. Recebo apenas um cheque do governo, o qual eles não me mandam pelo correio. Eu tenho que ir até um escritório e dizer: “Eu sou inválido e vim pegar meu cheque”. O dinheiro é pouco, uma merreca. Não consigo comprar uma prótese de plástico e nem sinto que preciso de uma. Gasto todo o dinheiro aqui. Eu moro em uma pensão vagabunda e de vez em quando falta o dinheiro para pagar o aluguel, então eu preciso morar nas ruas até que o governo me entregue outro cheque. E eu já rezei para que meu braço crescesse novamente, para que eu voltasse no tempo. Nada feito: Deus estava interessado em tirar o meu braço, mas pouco se importou com o que aconteceria a seguir.

Cotoquinho voltou a ligar a chave do silêncio, enquanto Eduardo tomou mais algumas doses antes de ir embora. Sem saber se a história era verdadeira ou não, acabou pagando pela conta do homem sem braço. De qualquer forma, ainda que não fosse a história verdadeira, Cotoquinho certamente tinha uma história triste.

Eduardo entristeceu. Ele gostava das histórias que ouvia das putas, dos viciados, dos batedores de carteira, dos moradores de rua. Ele gostava de chafurdar na lama, mas ficou depressivo ao conhecer a história do Cotoquinho. Antes, era apenas um homem desgraçado que se sentava ao seu lado. Agora, o jeito que Eduardo olhava para ele tinha se transformado para sempre.

Olhou para o céu, contando todos os seus privilégios. Ao contrário das pessoas que viviam no Chiqueiro, bebendo noite após noite esperando pela chegada da morte, ele estava ali por opção. Quando desejasse deixar de estar, ele poderia simplesmente ir a outro lugar ou encontrar um emprego. Poderia até mesmo pedir um emprego para o pai. Já os outros estavam condenados a estarem lá para sempre. Os dentes dos moribundos não voltariam a nascer e o fedor impregnado não deixaria os seus corpos. Cotoquinho não teria um novo braço e nem ao menos uma prótese de plástico.

Não podia ajuda-los. Continuou olhando para o céu, esperando que Deus fizesse algo, mas decidiu que Deus já tinha feito o suficiente. Não voltou ao Chiqueiro novamente. Havia enfiado tanto a cara na lama humana que sentia-se sendo sugado por ela como areia movediça.

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