E se a morte deixasse de existir amanhã?

Houve uma época em que morei em um apartamento em um prédio que ficava ao lado do cemitério. Era inevitável, de vez em quando, pensar sobre a morte. Era um dos maiores cemitérios da cidade e eu ficava o fitando incessantemente, pensando na multidão que estava enterrada ali: todos os sonhos de todas aquelas pessoas, enterrados ali; todos seus erros e acertos pouco significavam, pois elas estavam embaixo da terra e sua memória seria esquecida alguns anos dali.

Até o Paulo Leminski, um dos meus escritores prediletos, estava enterrado naquele cemitério. E qual seria a diferença do cadáver de Leminski para qualquer um dos outros? Nenhuma, eu presumo. E eu, como todo e qualquer ser humano, me pego pensando na morte da bezerra de vez em quando, e quando penso na morte da bezerra, acabo pensando na minha. Não é algo intencional, mas precisamos pensar sobre a morte. Ela está ali, não está? Em cada esquina, esperando que sejamos atropelados ou que nosso coração sofra uma arritmia.

Creio eu que é a morte que dá um propósito para a vida. Com a morte, tomamos consciência de que nosso tempo nesse planeta e nossa existência como um todo estão comprometidos. Nem mesmo haveria urgência ou emergência se não fosse pela morte. Me pego pensando, em alguns dias regados à bebida, em como seria se a morte não existisse. Nós olharíamos uns para os outros, sabendo que as pessoas estariam ali para sempre. Se a morte deixasse de existir amanhã, mudaríamos completamente o jeito que enxergamos a vida. Estão relacionadas, a morte e a vida, como se fossem um casal de namorados.

Se a morte deixasse de existir amanhã, estaríamos perdidos.

Não, eu não quero morrer. Eu não vejo beleza na morte, como veem os poetas. Mas, creio eu, que a morte se faz necessária. Pensamos sobre o sentido da vida o tempo todo, mas não pensamos sobre o sentido da morte. E a morte faz um bocado de sentido se você parar de pensar. Ela deveria ser uma motivação, como se dissesse: “Escute aqui, seu tempo é bem limitado e cedo ou tarde eu estarei chegando, então é melhor você aproveitar o tempo que tem“.

Algumas pessoas acreditam que a morte significa que a vida perdeu combustível e que ela irá parar de funcionar, mas não é assim que eu vejo as coisas: para mim, a morte é o combustível para a vida. É claro, ninguém quer morrer e ninguém quer que as pessoas próximas a nós vá a óbito, nem mesmo se for a morte mais agradável e serena o possível. Mas há algo de especial sobre a morte: ela é a garota (ou o rapaz) que todos inevitavelmente irão beijar e, quando esse beijo acontecer, todo o resto deixará de ser importante. Não importará quantos beijos você deu antes, nem com quantas pessoas foi para cama, nem mesmo quanto dinheiro você tinha no bolso e nenhuma dessas besteiras as quais nos esforçamos tanto.

A morte é um enigma. Ninguém pode afirmar o que acontece quando ela chega e nem mesmo eu aqui tenho essa pretensão. O que eu quero lhe dizer é que, se a morte deixasse de existir amanhã, estaríamos todos mortos por dentro. Isso não é bem pior? Ter uma existência que não tem começo, meio e fim. Um devaneio, um absurdo.

Talvez, todas nossas perguntas sobre a morte não sejam respondidas em nosso último suspiro. Mas, de que importa? Se há uma única coisa que faz com que todos os seres humanos tenham algo em comum, essa coisa é a morte. Precisamos dela, espreitando a cada esquina, para que possamos viver verdadeiramente.

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