A vida espiritual cheia de gente ‘desespiritualizada’

Meu primeiro contato com a vida espiritual foi lá pelo ano de 2012. Eu tinha acabado de passar por um pequeno trauma e realmente me sentia desamparado por ‘não acreditar em nada‘. Senti uma necessidade maluca de entrar em contato com o mundo espiritual e foi justamente quando eu comecei a pensar sobre isso que tive uma série de oportunidades e experiências espirituais e acabei conhecendo um bocado de gente que se diz espiritualizada.

Não demorou muito tempo para eu estar realmente envolvido com toda aquela gente e completamente imerso em experiências espirituais. Aquilo me fez um bocado bem, embora eu admita que eu fosse um pouco hipócrita em relação a tudo: eu queria viver a vida espiritual, mas eu não tinha a menor predisposição para deixar o mundo das festas e dos bares. E eu não via um grande problema nisso. Eu não estava interessado em seguir um jornada espiritual nem de me tornar um monge budista ou algo assim. O que eu realmente queria era ter experiências espirituais, aprender a meditar. As coisas mais simples. Eu não queria abdicar de nada que a vida tinha a me oferecer.

Isso, por si só, não tem problema algum. Quando eu passei a frequentar ambientes mais ‘espiritualizados’ compreendi que aquilo era para todo mundo: tinha muita gente que procurava pelas experiências para se recuperar de vício em drogas, para curar traumas de infância e apenas para experimentar algo novo. Por isso, eu me sentia bastante confortável em transitar entre os dois mundos: a vida real no aqui e agora e a vida espiritual.

Para mim, foi algo bastante proveitoso, mas eu também passei a ter um novo olhar sobre um aspecto bem particular de todo esse ‘rolê espiritual’: as pessoas. Quem já frequentou esse tipo de lugar mais espiritualizado deve ter percebido que você pode conhecer muita gente bacana no meio. E eu estou lhe dizendo que algumas das pessoas mais legais que eu conheci foi nesse ‘rolê’ todo, sem sombra de dúvidas. Algumas pessoas realmente são minhas amigas até o dia de hoje e recentemente fiz alguns amigos novos quando comecei a embarcar de novo nas viagens espirituais.

Com outras pessoas, eu não conseguia ter contato. Para mim, o espiritismo (ou o que quer que eu estivesse praticando) era algo libertador, mas existia bastante gente que não via dessa forma. Algumas pessoas realmente se aproximava de mim e diziam que eu não poderia beber cerveja ou fumar cigarros, uma vez que eu tinha visto ‘A VERDADE’. Que verdade era essa? A das pessoas que me falavam isso ou a MINHA VERDADE. Pois eu não estava procurando pela verdade delas, mas sim pela minha própria. E a  minha verdade consistia basicamente na liberdade: eu não tinha a intenção de deixar de transitar pelos dois mundos.

E talvez aquelas pessoas no fundo quisessem meu bem, mas na verdade elas estavam simplesmente CAGANDO REGRAS e estragando um pouquinho a paz que eu tentava ter comigo mesmo. É como se elas dissessem: “Escute, eu sei quais são as coisas certas. Então você deve fazer exatamente o que eu digo, pois eu sou uma pessoa iluminada, uma espécie da extensão de Deus na própria terra“. Não era muito diferente da Igreja Católica onde fui criado e aquilo não me interessava. Eu comecei a simplesmente ignorar as pessoas que se diziam SUPER-ILUMINADAS, pois para mim a vida espiritual nada tinha a ver com os super-poderes que eles julgavam ter.

Algumas dessas pessoas realmente passam o tempo inteiro falando sobre o EGO e sobre a necessidade do homem de conseguir dominar seu ego para ter algum contato com o outro mundo. Mas, se você se sente melhor do que os outros ou alguma espécie de detentor de verdades absolutas você é puro ego, meu amigo. Para mim, o espiritismo era apenas uma forma de autoconhecimento, onde eu realmente conseguia ter um tempo para conversar comigo mesmo, refletir e enfim esvaziar a mente.

O que eu quero dizer com esse texto é que existe um bocado de gente ‘desespiritualizada’ nos mundos espirituais. Essas pessoas se acham escolhidas pelo próprio Deus, floquinhos de neve especiais na terra. Sabe toda aquela conversa a respeito de dominar a própria mente? Não serve de nada se você continua acreditando que é melhor do que os outros. É só uma sombra, um monstro na parede que sussurra para você devaneios de grandeza. Eu mesmo me senti assim por algum tempo, ‘o filho escolhido pelo universo’, mas eu sabia que aquele era apenas um delírio de grandeza passageiro, então tratei de me colocar no meu devido lugar. Quero dizer, eu sou apenas um amontoado de carne e ossos cheio de água em um pequeno planetinha azul no universo. O que tem de tão especial nisso? Existem bilhões como eu só nesse planetinha azul.

O mundo espiritual não deveria ser para você se sentir melhor do que os outros. É justamente o contrário: é sobre você respeitar todas as existências e todas as escolhas, ainda que você não concorde com elas. Se você concorda ou não é um problema seu. Mas se você realmente ficar tentando convencer as pessoas a enxergar o mundo exatamente do jeito que você enxerga, você não é apenas ‘desespiritualizado’, você é um verdadeiro desserviço ao mundo. O mundo jamais deve ser algo homogêneo e o respeito às diferenças deveria servir como regra.

Para mim, o espiritismo foi uma muleta, admito. Mas uma muleta necessária: ele me transformou por completo, me ajudou a me tornar uma pessoa um pouquinho melhor e mais preocupada com os outros e com o mundo do que eu era anteriormente. Me trouxe consciência, sabe? Mas essa é só a minha experiência individual, que se soma a milhares de outras experiências individuais e todas tem o seu valor.

Eu não quero que você seja como eu e respeito suas decisões. É simples assim. Eu mesmo estou longe de ser uma pessoa espiritualizada. Eu gosto dos meus cigarros, das minhas cervejas e de aprontar um pouco de vez em quando. Evito ao máximo fazer o mal para os outros e para mim mesmo. Essas foram minhas conquistas das quais eu sou muito orgulhoso. Um dia eu disse isso para uma pessoa que transitava no meio espiritual e ela me disse: “Você não deveria sentir orgulho de si mesmo. Isso é o seu ego falando“. Mas e se for? Qual o grande problema? E o que isso muda para você? Eu queria perguntar isso para essa pessoa, mas simplesmente sorri e deixei pra lá. Eu não assinei nenhum contrato para estar ali, eu simplesmente estive. Eu não tinha nenhuma clausula que me impede de ter orgulho de mim mesmo. E, cacete… Depois de passar por graves sentimentos de baixa autoestima e de autodepreciação, sentir orgulho do meu progresso me fazia sentir bem.

Não existe problema algum em dar conselhos para as pessoas, em tentar transmitir sua visão de mundo para elas. Apenas não seja um c*zão chato pra cacete. Se você acha que tem todas as verdades do mundo (e você não tem, assim como eu não tenho) deixe que as pessoas descubram essa mesma verdade por elas próprias. Resumindo: não seja um maldito porre. O que torna alguém ‘desespiritualizado’ não é beber uma cerveja, fumar um cigarro ou sentir orgulho de suas conquistas. O que torna alguém ‘desespiritualizado’ é se sentir superior, cagar regra, achar que quem não consome apenas produtos orgânicos é uma pessoa burra.

Hoje eu mantenho cautela com as experiências espirituais e certamente mantenho a distância dos sabe-tudo desse rolê. Minha jornada vem sendo sobre libertação e isso não tem nada a ver com eles. Eu tento me libertar de mim mesmo. Os super-heróis do espiritismo provavelmente detestariam esse texto: “Escute, você não pode falar mal das pessoas porque blablabla…“, mas eu não estou preocupado com isso. Contudo, preciso responder: VOCÊS SÃO CHATOS, BICHO. Ninguém gosta de gente que se acha o dono da verdade. Se eu ler esse mesmo texto que eu escrevi agora em um ano eu provavelmente vou ter opiniões bem diferentes dessas, como sempre ocorre quando eu leio meus textos antigos.

Eu poderia falar mais sobre isso, mas vou deixar apenas o único ensinamento que eu pratico no meu cotidiano:

É isso. Namastê, seus filhos da p*ta adoráveis. Vocês não são melhores do que ninguém.

 

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